Este fim-de-semana passou o 4º episódio desta série.
A série continua com vários problemas que já vêm de episódios anteriores.
No entanto, desta vez, parece-me bastante pior, porque o caso é ridículo.

O Joaquim Fernandes, que não é cientista, começa por dizer que isto anda em debate no meio científico; isto é falso. Poderia dizer que ele está a mentir publicamente, mas não é o caso. O que se passa é que ele além de não saber o que é ciência, não está dentro do que se passa no meio científico a este nível, e por isso imagina que no meio científico até se discute isto. Ele é historiador, e os seus ajudantes também são de áreas sociais; daí que ele confunde sociologia com ciências naturais, e imagina que no meio científico, casos destes sejam discutidos. Análises sociológicas são importantes, e é isso que ele faz. Mas confundir isso com ciência, é enganar-se a si próprio e mentir aos outros.

A doutora vinha a conduzir e viu nuvens no céu. Não há nada de sobrenatural aqui.
A doutora pensou que a nuvem tinha a primeira letra do seu nome. Há quem veja até o nome todo, e há quem veja coelhos e outros animais nas nuvens. Não há nada de estranho aqui.
A doutora pensou que a nuvem a seguia. Quem já conduziu a olhar para a Lua também pensou isso. Até o Buzz Aldrin já foi perseguido pelo planeta Vénus!!! Nada de anormal aqui também.
A doutora pensou que a nuvem mudava de côr. Bem, nada de anormal aqui também. E sobretudo se se pensar em auroras boreais…
A doutora ia a conduzir e começou a falar ao telemóvel. Nada de anormal… apesar de ser ilegal.
A doutora falou com a sua filha, que provavelmente na altura até via os Ficheiros Secretos, e por isso começou a imaginar coisas. Nada de anormal aqui também.
Ou seja, até aqui não há caso!

Começa a haver caso quando? Quando ela vê a cicatriz e depois faz a regressão hipnótica.

Quanto à cicatriz, que ela descreve como sendo enorme, não percebo como ela pode andar 3 a 4 semanas com uma cicatriz no pescoço sem a ver! E depois quando se está a pintar, naturalmente, repara nela. Não se pintou nem se olhou ao espelho durante quase 1 mês? É deveras estranho…
E nem sequer vou entrar no facto dos supostos extraterrestres usarem instrumentos que ela nunca viu, mas seres tão avançados, mas tão avançados que conseguem viajar entre as estrelas, e ainda deixam cicatrizes naquilo que tocam! Mas ninguém viu o Caminho das Estrelas? Até essa série tinha mais imaginação, e era mais perfeita, nesse sentido. Por outro lado, os extraterrestres não querem ser vistos, e por isso “atacam pela calada” e de forma a não serem lembrados… mas qual é o resultado? Eles são tão estúpidos que não percebem que deixam uma cicatriz, nem percebem que uma simples regressão feita por uns descendentes de macaco consegue “reavivar as memórias escondidas”.
Este é o grande problema dos defensores das abduções e das regressões: é quererem tudo! Querem que os ETs sejam extraordinariamente superiores, e extraordinariamente estúpidos.
Não faz qualquer sentido, para quem use a lógica, sentido crítico, e um mínimo de espírito científico; em vez de enveredar pelo caminho das crenças.

Quanto à Regressão Hipnótica, o que nos diz a ciência? Não pode fornecer provas, porque normalmente é feita por pessoas que influenciam os clientes. E é o caso da Gilda Moura. Quem conhece e leu livros da Gilda Moura, sabe que ela vê extraterrestres nas experiências de regressão. E tal como é dito no episódio, mesmo inconscientemente, ela guia, impondo memórias falsas nas pessoas. Aliás, como se pôde ver no programa, os brasileiros (o mesmo se pode dizer dos americanos) comandam nesta categoria. As ideias New Age, de Religião, Crenças, etc, polulam as mentes destes auto-proclamados investigadores que fazem Regressões Hipnóticas.
Os “investigadores” que crêem em vidas passadas, levam os seus clientes a lembrarem-se de vidas passadas; os que crêem em extraterrestres, levam os clientes a lembrarem-se de abducções (como neste caso); os que crêem no diabo, levam os clientes a pensar que foram amaldiçoados; os que crêem que as experiências são fruto de traumas de infância, levam os clientes a pensar que os seus pais eram pedófilos (já há “investigadores” - ponho entre aspas, porque para mim sao pseudos - que foram parar à prisão, aqui, por causa disso); etc. Há imensa literatura sobre isto. Uma coisa é certa: isto não é ciência.

Como uma das entrevistadas disse, isto tem a ver com religião, com simbologia, com a parte social e psicológica de uma pessoa.

Tudo isto não passa de crenças, neste caso em naves extraterrestres que estão muito interessadas em nós. Mas crenças não são ciência. Crenças são passíveis de e devem ser estudadas pela sociologia, psicologia, etc; mas confundir isto com Física, por exemplo, e afirmar que o meio científico anda a estudar isto, é pura ignorância ou pura mentira.

E é pena.
Porque o programa poderia ser muito melhor se tivesse uma base científica, se os casos fossem comunicados de forma mais eficiente, se não houvesse esta constante aura de mistério sobre casos que de misteriosos têm muito pouco, e se não houvesse este aproveitamento no uso verbal da palavra ciência para algo que notoriamente tem pouco de ciência (à boa maneira da pseudo-ciência, como a astrologia).

Ou seja, no meu entender, isto não ajuda a ovniologia; muito pelo contrário. Faz com que a ovniologia continue a ser vista como estando ao nível da astrologia. Faz com que os ovniologistas continuem a ser vistos como astrólogos, como pseudos. E isto porquê? Porque é assim que eles se “vendem” em programas como este. Usam a palavra ciência de forma muito pouco… científica.