Deve haver alguém?
“Deve haver alguém a mandar nisto tudo”, dizia o homem do sul no negrume da noite. Afinal perante o manto de estrelas era natural que existisse alguém a mandar nisto tudo. E eu pensei naquilo e lembrei-me de que ele não tinha visto a palestra à tarde, porque se tivesse visto, se calhar já não dizia que há alguém a mandar nisto tudo. Se calhar tinha percebido que não estava escrito em lado nenhum que isto tinha que aparecer. Ou melhor estava escrito, mas é como se não estivesse. Tinha percebido que não tinha que haver gente. Que nada disto é definitivo. Que não tinha que ser eu nem ele. Que nada anunciava o nosso nascimento. Que não tínhamos que ser o que somos. Que não tínhamos que estar ali naquela noite. Lembrei-me então que faço anos, que nasci sem nada inscrito. Do mais primordial dos silêncios. Para ser não o que sou, mas outra coisa qualquer que podia ter sido. “Deve haver alguém a mandar nisto tudo”, dizia o homem na serenidade da noite. Desconfio que não, mas quem sou para desconfiar? Para contrariar o homem que estava ali para observar? Nada do que eu dissesse ia adiantar. Deixei-o ir com a convicção dele. Mas fiquei a pensar. Deve haver alguém a mandar nisto tudo, mas quem? E a mandar em quê? Em nós?
08 Jul 2008 José Matos
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