Explosões de Raios Gama ainda mais interessantes
A última década permitiu aos astrofísicos determinar finalmente a natureza dos GRBs (Gamma Ray Bursts). Sabe-se que são extremamente distantes, ocorrendo em galáxias a vários milhares de milhões de anos-luz e estabeleceu-se uma associação clara entre os GRBs e as supernovas, pelo menos as do tipo específico Ic, resultantes de estrelas maciças. De facto, o modelo físico actualmente mais aceite para explicar os GRBs atribui a sua origem a feixes intensos e altamente colimados de partículas produzidos durante o colapso de uma estrela maciça. O feixe de partículas, ao colidir com material circum-estelar, aquece-o e provoca a libertação de radiação gama. Posteriormente, o arrefecimento gradual deste gás provoca a emissão de radiação noutras zonas do espectro electromagnético. A radiação óptica proveniente desta interacção é vulgarmente conhecida como o optical afterglow do GRB e, apesar de ser normalmente muito débil e efémera, a sua análise espectroscópica permite a obtenção de informação vital sobre o fenómeno.
O satélite SWIFT foi concebido para permitir a detecção precoce e localização precisa de GRBs, informação que permite a outros observatórios, no espaço e à superfície, a observação do fenómeno noutras regiões do espectro electromagnético.
Em 19 de Março passado, como noticiámos aqui, o SWIFT detectou o GRB mais intenso de que há registo, o GRB080319B. Localizado numa galáxia situada na constelação do Boieiro, a 7.5 mil milhões de anos-luz, o seu optical afterglow foi brevemente visível a olho nu, como uma estrela de magnitude 5, e foi detectado pelas câmaras de grande campo do projecto PiOfTheSky. Normalmente, um optical afterglow é visível apenas em grandes telescópios ou em telescópios mais modestos munidos de detectores sensíveis. O brilho deste GRB e o seu carácter único forneceram aos astrofísicos uma oportunidade de perceber melhor o mecanismo subjacente aos GRBs e a razão do brilho anormalmente elevado do GRB080319B.
Agora, os primeiros artigos com estudos detalhados deste GRB foram publicados na prestigiada revista Nature e os resultados são surpreendentes. A análise do afterglow do GRB080319B indica que este resulta da interacção de dois feixes (e não apenas de um) intensos de partículas com material circum-estelar. O feixe mais intenso é extremamente colimado, com um cone de apenas 0.4 graus, e é constituído por partículas que viajam a 99.9998% da velocidade da luz. Este feixe encontra-se no interior de um outro feixe, menos energético e menos colimado (20 vezes mais aberto), com propriedades semelhantes às apresentadas por outros GRB. Esta observação sugere a possibilidade de que todos os GRB tenham feixes com duas componentes sendo que, na maioria dos casos, apenas se observa a componente menos intensa. No caso do GRB080319B, o feixe mais intenso de radiação estava alinhado quase exactamente com a Terra, o que explica o seu brilho excepcional. Com base nas características do feixe mais energético, é possível calcular que, em média, podemos esperar um GRB com as características do GRB080319B por década. Podem ver a notícia original aqui.
15 Sep 2008 Luis Lopes
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