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Dez 22

Quanto vale a ciência?

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A ciência é vital.
Não só nos dá as tecnologias, e vantagens que usufruímos no dia-a-dia, mas sobretudo dá-nos todo o conhecimento que dispomos.
É essa curiosidade científica, e o pensamento crítico a ela subjacente, que nos permite saber tudo aquilo que sabemos.
E esse conhecimento é vital. Veja-se por exemplo, em termos individuais, o caso da medicina, e em termos de espécie o caso da astronomia.
Para sobrevivermos precisamos sem dúvida do conhecimento científico.

Daí que se calhar a pergunta que se deve fazer é: Quanto vale o conhecimento?

Como se pode ver aqui, o conhecimento, sobretudo o científico, e nomeadamente o ligado à astronomia vale pouco, vale muito pouco. E isto são valores para os EUA, porque em Portugal as discrepâncias são muito maiores, e o conhecimento científico vale muito menos.
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Tendo em conta que esse conhecimento é vital para sobrevivermos como espécie, parece-me então que está demasiado subvalorizado.

Porque será que não damos valor ao conhecimento em geral?
Porque será que não damos valor, em particular, à ciência?
Porque será que não damos valor, nomeadamente, à astronomia?

Faço estas perguntas, após já ter reflectido bastante sobre isto, e até já ter partilhado ideias com astrónomos amadores, numa conversa que começou aqui e acabou aqui, 50 e-mails depois.
Neste post vou fazer uma auto-crítica, como português, como divulgador de astronomia, e como um dos coordenadores deste blog.


A qualidade paga-se.
Muita gente vê o preço como sinónimo de qualidade. Basta ir pelas ruas do Porto ou perguntar nos shoppings. Entre algo que é barato e outra coisa que é cara, as pessoas tendem a escolher o mais caro, porque imaginam que isso lhes trará maior qualidade.
Por exemplo, assume-se que o mérito dos médicos se mede pelo preço da consulta. Assume-se que o médico que leva 120 euros por consulta é melhor do que o médico que só leva 20 euros por consulta.
Ou seja, o subconsciente das pessoas atribui o valor a algo, mediante aquilo que paga por esse algo. É uma falsa noção de valor – o preço -, mas é o que as pessoas assumem ser verdade.

O que é de graça é desvalorizado totalmente.
Há já uns tempos recebi por e-mail uma estória, provavelmente apócrifa, de alguém que dizia que tinha deitado o frigorífico ao lixo. Ainda trabalhava, mas como comprou um melhor, desfez-se daquele que tinha. Colocou ao lado do lixo, de modo a alguém o levar. Ninguém pegou nele. Por isso, o dono pegou nele novamente e pôs-lhe um preço de 50 euros. E recebeu inúmeros telefonemas de quem lhe queria comprar o frigorífico.
Ou seja, como era de graça, ninguém pegou naquilo. Quando passou a ser pago, já muita gente queria.
Da mesma forma, alguém me disse há uns tempos que o cantor Zeca Afonso não cobrava nada quando cantava para o público popular, e queixava-se de que era menos bem tratado e menos considerado do que os outros cantores que cobravam cachet.
Provavelmente se o Quim Barreiros, por exemplo, fizesse espetáculos de graça, ninguém o convidava. Mas assim, a centenas (milhares?) de euros, terá provavelmente a agenda preenchida com convites.
O mesmo se passa na educação. Sendo de graça, ninguém lhe dá valor. Se o professor falta, os alunos pulam de alegria.
Ou seja, desconsidera-se, despreza-se e desvaloriza-se o que é de graça. Mesmo que tenha valor e qualidade, as pessoas assumem que não tem, por ser gratuito.

Não só a percepção (mesmo que errada) de qualidade se paga, mas a marca também se paga.
Por exemplo: se eu comprar um relógio nas lojas dos Chineses, sei que a qualidade é mínima, o relógio é barato (2 euros), e dura uma semana. Se comprar na Swatch, é mais caro (40 euros), pago também pela marca, e espero que tenha melhor qualidade e dure mais. Se comprar um Rolex, o preço é muito mais alto (podem chegar a 1 milhão de euros), vou também pagar pela marca, assumo que a qualidade é enorme, e espero que dure a vida inteira.
Outro exemplo: as marcas de roupa, é a mesma coisa. Quanto mais cara, e sendo de marca, assume-se implicitamente uma qualidade melhor.
Outro exemplo: se as sapatilhas Nike fossem de graça, ninguém queria saber delas.
Ou seja, a percepção de qualidade e a marca, pagam-se.

Não é a marca propriamente que se paga, mas sim a percepção de qualidade associada à marca, que existe na mente das pessoas.

Sendo assim, e tendo em conta que a ciência está em todo o lado no nosso dia-a-dia, então a marca “ciência” deveria ter um valor enorme.
No entanto, o que se passa é o contrário. A marca “ciência” e a marca “conhecimento”, nada valem para as pessoas.


Quem se aproveita desta mentalidade de “qualidade paga-se” são os pseudos e os os auto-denominados “famosos“.

Os pseudos fazem palestras a 25 euros, dão cursos a 170 euros, etc. Podem dizer as maiores palermices/mentiras, como por exemplo: “Os seres luminosos proporcionam um trabalho profundo do coração actuando no DNA espiritual e efectuando a conexão e activação de várias fitas de DNA“. Podem até incluir que passaram pela NASA ou por vários países (quer o tenham feito ou não), porque supostamente isso dá-lhes “credibilidade e prestígio” para aumentarem ainda mais os preços.
As pessoas lêem isto, e vêem o preço, e a percepção é que eles têm que saber do que estão a falar, pelo preço que levam.
Não só há uma falsa avaliação, mas há uma estupidificação/imbecilização da sociedade.

Já os “famosos” levam cachets monstruosos para aparecerem em discotecas.
A Bárbara Guimarães, quando era convidada para aparecer numa discoteca em Portugal, levava um cachet provavelmente de alguns milhares de euros por passar 2 horas a acenar.
A Jaciara (ex-mulher do jogador Deco, que já jogou no FCP) é considerada famosa (não me perguntem porquê, que eu também não sei). Quando vem a Portugal visitar uma discoteca, pede 3000 euros por 3 horas a acenar.
O Figo visita uma escola e tem logo a acompanhá-lo o Ministro da Educação.
Se o Cristiano Ronaldo decidir visitar uma escola, aparecem logo “por milagre” fundos monetários que não existiam e “altos dignatários da Nação” a marcar presença.
Famosos e pseudo-famosos (ex: Reality Shows) levam caríssimo para não fazerem nada, dando a entender que só a presença deles, a “marca” deles tem qualidade. Mesmo não tendo qualidade nenhuma, essa é a percepção que transmitem às pessoas.


Enquanto os pseudos colocam preços altos, para transmitirem a ideia que o que vendem tem qualidade, já os divulgadores de ciência (muitas das vezes são também cientistas) transmitem a ideia que a ciência tem pouca qualidade.
Enquanto os pseudos vão ficando ricos, os cientistas vão-se queixando da falta de fundos para as suas equipas.
Enquanto os pseudos (e famosos) aproveitam-se da mentalidade de “qualidade paga-se”, a ciência ignora isso e passa uma má imagem de si.

Por exemplo, o Zé Matos leva muito pouco pelo conhecimento que detém, em comparação com o desconhecimento dos pseudos. Tanto em palestras como em cursos, os valores que o Zé Matos leva são nitidamente inferiores aos dos pseudos. Se qualidade paga-se, as pessoas vão ficar a pensar que o curso dos pseudos é melhor, que as mentiras deles valem mais que o conhecimento do Zé Matos.
Os elementos da Atalaia não levam nada pelas explicações quando fazem observações astronómicas com o público.
O Pedro Ré, o Guilherme de Almeida, e vários outros pertencentes à APAA, também não levam nada pelas palestras que fazem. E muitas vezes nem sequer têm “direito” a ser indemnizados pelas deslocações que fazem. Os organizadores nem se “lembram” dessas despesas, assumindo que estas pessoas só por divulgarem ciência então serão uns “coitadinhos” e não têm direito a serem reembolsados (ou seja, têm que ter prejuízo, e é se querem!). Há uma desvalorização total do conhecimento e das pessoas que o detém.
Quando existem encontros de astronomia, os palestradores não são pagos.
Quando há eventos locais, por exemplo organizados pelas Câmaras, os famosos são pagos a peso de ouro para lá irem, até eventuais palhaços são pagos, mas os divulgadores de conhecimento (neste caso, de astronomia) não são pagos. As câmaras teriam todo o interesse em pagar-nos, porque são eventos úteis para os moradores, que dão visibilidade à região, dão boa imagem às Câmaras, dão lucros aos restaurantes e pensões, e enriquecem o conhecimento dos naturais da terra. Mas o certo é que nem as deslocações ou estadias querem pagar. Assumem que o conhecimento não vale nada.
As escolas não pagam a quem lá vai fornecer o conhecimento (os próprios professores são muito mal pagos, por isso já se vê como o conhecimento é desvalorizado). Eu próprio (e o Nuno e a Vera) temos experiência pessoal de ir a escolas há uns anos atrás perguntar se queriam que dessemos algumas aulas GRATUITAS de astronomia, e disseram-nos que não. Provavelmente, porque era de graça, e assim é mal visto (é visto como não tendo qualidade). No entanto, se dissessemos que um pseudo-famoso que acabou de sair da Casa dos Segredos iria lá, provavelmente até nem havia aulas e tentariam arranjar o mais dinheiro possível para lhe pagarem.

E nem é preciso referir que quando estes e outros especialistas vão divulgar astronomia/conhecimento a uma escola, além de não serem pagos, também não têm os ministros a agradecerem-lhes e a “babarem-se” ao seu lado, em presença de tão grande conhecimento.

Comigo passa-se o mesmo dos exemplos que dei em cima.
Sempre que vou a Portugal, vou a vários lados fazer divulgação de astronomia. Tento fazer palestras, por escolas, encontros, astrofestas, etc.
Não sou pago pelo trabalho, e raramente me pagam as deslocações.

(já agora, um àparte para dizer que nos EUA, existe esse reconhecimento pelo trabalho, pelo mérito, pelo talento, pelo conhecimento. Daí que sou pago e não esperam que eu faça nada de graça. Pagam pela qualidade do conhecimento.
Por outro lado, existe uma aposta na ciência, na marca, e no marketing, como por exemplo nos centros da NASA. O que leva ao respeito e à valorização dessas instituições. Já em Portugal parece-me que centros de ciência (no Visionarium tenho experiência própria disso) não querem saber de marketing ou de “vender” os seus produtos científicos – por exemplo, nas próprias lojas que não se encontram nas saídas.
Há também uma valorização do que é essencial, e não uma concentração no acessório ou “deixar andar”.
Parece-me também que aqui existe um planeamento de longo prazo, enquanto em Portugal pensa-se somente no curto prazo, por exemplo preferindo ter 50 pessoas a olharem durante 1 hora para uma palestra, esquecendo-nos que a mensagem de longo prazo que se transmite é que o nosso valor, o nosso conhecimento, o nosso tempo, não vale nada.
Tenta-se igualmente dinamizar com os recursos disponíveis e tentar arranjar mais para utilizar, enquanto em Portugal há muito telescópio “empacotado”.
Parece-me sobretudo uma questão de mentalidade. Na América do Norte, e na Europa do Norte, pode-se retirar um jornal (ninguém tira mais) das “caixas” de jornais, por vezes não existem pessoas a controlar entradas para o cinema, pode-se comer nos supermercados, etc. As pessoas não tentam “passar a perna”, ser “chicos-espertos”, porque sabem que o trabalho custa e quem fica a perder é a sociedade no seu todo. Na Europa do Sul não se vê os frutos desse trabalho, e por isso não se dá valor a quem trabalha, a quem detém conhecimento)

Voltando a mim, e ao que faço em Portugal, é claro que faço as coisas por “amor à causa” (mesmo tendo prejuízo monetário).
Obviamente que acho importante o trabalho que faço no blog, e na divulgação quando vou a Portugal.
E para alguns, provavelmente isso é suficiente, mesmo não tendo o reconhecimento que merecem.
Afinal o importante é fazer chegar a astronomia, e o conhecimento, ao maior número de pessoas.

No entanto, a minha pergunta prende-se com a percepção das pessoas.
Se não levamos $$, as pessoas assumem que essa actividade tem menos qualidade que as palestras dos pseudos a dezenas de euros.
Ou seja, a ciência é “vendida” como se fosse uma “loja dos Chineses” (não tenho nada contra elas, é só um exemplo de preço-qualidade). O conhecimento (científico) é publicitado nos preços, como tendo pouca qualidade. A “marca” ciência vale menos por isso… poderemos estar a retirar mérito à ciência.
Ao fazermos as coisas de graça, estaremos a desprezar o valor da marca ciência, e estaremos a contribuir para que as pessoas não tenham orgulho na ciência e na sua educação científica.

Exemplo: se o sr. X desse 100 euros por uma palestra de astrobiologia, provavelmente sentir-se-ia mais orgulhoso a contar aos amigos: “Ontem fui a uma palestra excepcional. Dei 100 euros, mas foi muito bem empregado, porque a qualidade era excelente e fiquei a saber muito mais”.
No entanto, o que acontece actualmente é isto: o sr. X diz ao amigo: “Ontem fui a uma palestra de astrobiologia. Foi excelente. Aproveita que é de graça.”
Ou seja, o amigo poderá ir, porque é de graça. Não pela marca, não pela ciência, mas sim porque é de graça.

A ciência perde valor aos olhos das pessoas.
O conhecimento científico/astronómico é visto como tendo menos valor que um Curso de Metafísica, ou que uma Bárbara Guimarães a acenar, ou que uma Jaciara a aparecer nalgum lado, ou que um Figo a visitar alguma coisa.

E provavelmente somos nós que estamos a contribuir para isso, para a desvalorização popular da ciência, para o demérito da ciência, para a diminuição da importância da ciência, e para a desvalorização do nosso próprio conhecimento.
Enquanto os pseudos valorizam as mentiras que divulgam, e os “famosos” não aceitariam ir de graça fazer trabalhos similares, já quem divulga a ciência deixa que o seu valor seja entendido como “zero”.
Há uma desvalorização total do conhecimento e das pessoas que o detém.
E nós contribuímos para isso – deixamos que essa seja a mensagem passada para as pessoas, que essa seja a percepção das pessoas. Não mostramos orgulho no conhecimento que temos, no mérito que dispomos, no valor que o nosso conhecimento tem. Deixamos que as pessoas associem ciência e conhecimento com pouco valor, um valor nulo (gratuito).
Este recurso próprio que temos – conhecimento -, é, assim, desprezado, inclusivé por nós. E se nem a própria pessoa dá valor ao seu conhecimento, não se pode esperar que os outros dêem esse valor.

Imagine-se que está um extraterrestre lá em cima, a tentar compreender a população terrestre.
O que pensará ele?
Que a nossa sociedade dá mais valor a acenos, a pseudo-famosos, a ex-jogadores de futebol, e a pseudos, do que ao conhecimento científico.
Ou seja, o ET pensaria exactamente o que as pessoas pensam: o que é mais caro e tem os “chefes da nação” a acompanhar, tem mais valor.

Alguma coisa tem que mudar. As mentalidades têm que mudar.
Provavelmente só muda, se os divulgadores (como eu quando vou a Portugal) mudarem de mentalidade. Se pararmos de denegrir a ciência e a nós próprios, sem querer. Se deixarmos de assumir para nós e para o nosso conhecimento um valor abaixo dos Quim Barreiros deste mundo, e começarmos a dar a entender que “o meu valor é superior ao do Quim Barreiros” ou, no mínimo, assumir: “o meu valor intelectual é semelhante ao do Quim Barreiros em termos musicais”. Só isso, já faria mudar muita coisa, só isso já faria as pessoas perceberem que a ciência e a pessoa que a comunica tem valor.
Só mudando as mentalidades neste campo, poderemos mudar a percepção das pessoas quanto ao valor da ciência e ao nosso próprio valor.


O projecto astroPT é gratuito, disseminando assim a ideia que a qualidade do conhecimento científico é insignificante (ao ser de graça).
Por exemplo, existem inúmeros sites na net que têm conteúdo porno, e paga-se. No blog do astroPT, não se paga nada, para se saber de notícias astronómicas. Assim, o astroPT está a passar a mensagem que o conhecimento de astronomia vale menos que vídeos pornográficos.
Ou seja, o astroPT mesmo tendo por objectivo disseminar conhecimento científico, está sem querer a transmitir a mensagem que esse conhecimento não vale nada. Quem nos lê fica invariavelmente com essa ideia: que saber de astronomia vale menos do que pagar para ir ver a Jaciara, por exemplo.
Como qualidade paga-se, a percepção de quem nos lê é que o astroPT, e a ciência, tem menos qualidade que pseudo-famosos.

Por outro lado, enquanto o Quim Barreiros, o Cristiano Ronaldo, ou o Carl Sagan fazem valer a sua Marca como sinal de reconhecimento nas suas áreas, já o astroPT, ao ser gratuito, transmite a ideia que não existe esse valor – a marca astroPT não existe, é nula, gratuita. Essa será a percepção de quem nos vê/lê.

Notem que nem estou a dizer que se se pagasse, então o projecto astroPT teria que ser profissionalizado, e daria para competir com artigos ao nível de sites profissionais de notícias.
Estou somente a colocar as coisas em termos filosóficos, em termos de percepção das pessoas.
Como as pessoas sabem que a qualidade paga-se, então o astroPT estará inadvertidamente a transmitir a mensagem que a divulgação da astronomia e da ciência em geral devem ser de graça porque não têm qualidade.

Ou seja, apesar do nosso objectivo ser melhorar o conhecimento científico/astrónomico dos nossos leitores, o que poderá estar a acontecer é que estamos a reforçar a ideia de que o valor (desta divulgação) da ciência é nulo.
Estamos a contribuir para a ideia que a marca conhecimento e a marca ciência nada valem.
A filosofia gratuita de transmissão do conhecimento inerente ao astroPT, pode estar assim a dar um tiro no pé, e a contribuir para a desvalorização da ciência.

É tudo uma questão de percepção de valor, e imagem de marca.
A divulgação da ciência, e a transmissão de conhecimento, terá necessariamente que compreender estas leis de mercado.
Já Darwin dizia que o factor principal para a sobrevivência é a adaptação ao meio em que se está inserido.

Sendo assim, parece-me que o astroPT:
- para não morrer, terá que evoluir.
- terá que ter uma evolução que tenha em atenção as percepções da sociedade.
- terá que tentar ser reconhecido como uma marca de qualidade.
- e terá que tentar mudar as mentalidades, passando a contribuir para com que a ciência seja valorizada, fazendo com que o conhecimento seja reconhecido como tendo valor.

Acerca do autor(a)

Carlos Oliveira

Carlos F. Oliveira é astrónomo e educador científico. Licenciatura em Gestão de Empresas. Licenciatura em Astronomia, Ficção Científica e Comunicação Científica. Doutoramento em Educação Científica com especialização em Astrobiologia, na Universidade do Texas. Criou e leccionou durante vários anos um inovador curso de Astrobiologia na Universidade do Texas. É actualmente Research Affiliate-Fellow em Astrobiology Education na Universidade do Texas em Austin, EUA. Trabalhou no Maryland Science Center, EUA, e no Astronomy Outreach Project, UK, recebeu dois prémios da ESA, e realizou várias palestras e entrevistas nos media.

55 comentários

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  1. Carlos Oliveira

    estas são algumas “deambulações mentais” que vou tendo, tendo em vista melhorar a percepção da ciência e do conhecimento pela população em geral.

    Mas gostava de ouvir a vossa opinião sobre isto.
    Gostava de tentar perceber melhor qual é a vossa percepção, e qual é a percepção que as pessoas têm da ciência.
    Gostava de tentar saber algumas soluções que possam propôr para se mudar as mentalidades, e a ciência (e o conhecimento em geral) passar a ser valorizado.

    E gostava de saber o que pensam do astroPT.
    Se não estará também a contribuir para esta mentalidade/percepção de desvalorização (sem valor) da ciência.

  2. G. Mbeki

    Parece então que a discussão dos últimos 40 anos sobre a divulgação científica tem uma solução fácil: basta cobrar cachet. Há duas falhas principais nesta argumentação: a primeira é presumir que as pessoas estão dispostas a pagar pela divulgação científica – e neste caso, importa recordar que o movimento original partiu da própria comunidade científica, que perante a pressão social sentiu necessidade de justificar os seus orçamentos, os seus recursos e os investimentos que queria que fossem feitos. Portanto, nunca houve um momento em que o público procurasse ávidamente eventos de divulgação científica, pelo contrário. O esforço tem estado sempre do lado da comunidade científica (e mais recentemente, dos governos) para que as pessoas valorizassem a ciência e legitimassem os investimentos nela feitos; a segunda é comparar um evento de divulgação científica com um concerto do Quim Barreiros ou com um jogo de futebol, e utilizar isso como argumento. Para derrubar esta ideia basta perguntar quantos eventos de divulgação científica em Portugal já tiveram os 60 mil espectadores que enchem um estádio de futebol ou que vão ver Quim Barreiros na queima das fitas. E podemos até estender o exercício para o caso dos EUA, com as devidas correcções de escala, e creio que as conclusões serão semelhantes.

    E uma nota final quanto aos divulgadores/comunicadores de ciência: a categoria aparece depois dos cientistas e da sociedade perceberem que não conseguiam comunicar, surgindo então pessoas especializadas em fazer a tradução entre as línguas dos dois mundos. No entanto, é preciso não esquecer que apesar de alguns cientistas conseguirem ser comunicadores de ciência, poucos ou nenhuns comunicadores de ciência são cientistas. A profissão não existe por si só, e não faz sentido que existam comunicadores de ciência desligados das instituições científicas e dos cientista – sejam ou não mais competentes do que os tais “pseudos”. E creio que este artigo é apenas uma tentativa confusa de legitimar a existência de algo que não tem sustentabilidade social ou económica.

  3. Carlos Oliveira

    Olá “Mbeki”,

    A profissão existe. O Zé Matos é divulgador de ciência. Pelo que sei, é a profissão dele. Não tem outra profissão.

    Existem mais pessoas por ano a entrarem no Kennedy Space Center na Flórida, no Rose Center em NY, no MSC em Baltimore, ou no Museu Guggenheim (de arte) em NY, do que a ir ver jogos de futebol ou concertos do Quim Barreiros.
    5 milhões visitam o Museu do Ar e do Espaço, em Washington DC, anualmente. — pessoalmente adoro este museu.
    E 600 milhões (!!!!) visitam os museus anualmente nos EUA.
    http://staging.forbestraveler.com/best-lists/most-visited-museums-story.html
    E todos eles pagam para irem ver exposições nesses museus.
    Ou seja, dão valor a isso. Valorizam o conhecimento que lhes é prestado ao ponto de pagarem por ele (e algumas vezes o preço é alto, dependendo de quantos “shows” quiserem assistir). E valorizam a “marca” desses museus.

    Já em Portugal, duvido que as pessoas estejam dispostas a pagar para irem ver o Visionarium, por exemplo.
    Assim como assumem que não devem pagar para irem ver uma palestra do Pedro Ré, por exemplo.
    A minha pergunta é: porque há essa diferente percepção do valor do conhecimento, e como mudar essa mentalidade?

  4. Joaquim Meinedo

    A ciencia está desvalorizada em portugal, porque isto é um recanto à beira mar plantado muito mal frequentado.
    Anda toda a gente a armar ao fino e não sabe nada de coisa nenhuma, “vale mais” um indivíduo que tenha um canudo, mesmo não sabendo nem sequer a tabuada, do que Um com pouca instrução oficial, mas que tenha conhecimentos muito para além de vários com canudo.
    Temos que ir tentando ensinar esta gente, nem que para isso tenhamos que ter prejuízo.
    JMeinedo.

  5. Frederico Cardigos

    Excelente texto e óptima reflexão. No entanto, penso que o problema não está no cobrar. O problema está na disponibilidade para pagar. Ou seja, mais do que no emissor do conhecimento, que pode cobrar ou não o preço justo, o problema está no receptor português que não tem disponibilidade para pagar. Mais uma vez, é um problema que, na minha opinião, se resolve com boa educação, com grande qualidade. Algo que todos teremos de assumir, colectivamente, que estamos dispostos a pagar. Melhor, que exigimos ter e não nos importamos de pagar.
    A Wikipedia, fenómeno de divulgação de conhecimento em larga escala, é gratuita e voluntária. Tem erros, alguns artigos são mesmo ilegíveis, mas, na generalidade, dá as pistas para uma primeira abordagem. Não é por ser gratuita que lhe dão menos valor. Acho eu…

  6. Carlos Oliveira

    nba.fi…

    Já agora, fui comparar com países da Europa do Norte.
    Exemplo: Finlândia. Tem pouco mais de 5 milhões de habitantes. Tem 5 milhões de visitas anuais aos seus museus.
    http://www.nba.fi/en/statistics

    Em Portugal, com 10 milhões de habitantes, em 2007 bateu-se o recorde de visitantes, com pouco mais de 1 milhão de visitantes a museus.
    http://viajar.clix.pt/noticias.php?id=2955&lg=en

  7. Mário

    Quando se fala de ciencia esta é quase sempre apresentada em modos que os comuns dos mortais simplesmente não entende.

    Por exemplo: “Os seres luminosos proporcionam um trabalho profundo do coração actuando no DNA espiritual e efectuando a conexão e activação de várias fitas de DNA“, é bem mais facil de “entender” do que a suposta utilização de arsenico no DNA de uma bacteria. Enquanto que a primeira afirmação roça a religião dizendo que é assim por é assim, sem grandes explicações, a segunda já nos faz pensar não só na alteração do que é sabido sobre DNA mas também em tudo aquilo que roda em volta desta “descoberta”.
    De uma forma mais simples: É mais facil para o comum dos mortais, acreditar em algo sem grandes explicações e, que não tenha de dedicar muito tempo a pensar, do que passar imenso tempo a tentar entender todas as ramificações da ciencia.

    Por outro lado, ninguem é mais importante que o seu proximo só porque entende de ciencia e o outro dá uns pontapés na bola. Qual destes é mais importante? nas sociedades actuais claramente o jogador de futebol. Injustiça? Sim, muita. Devia alguem que entende de ciencia ser mais importante? Não. Então como se faz?

    Ensinar toda a gente, que todos vamos à casa de banho e ás vezes não é bonito (gostava de dizer isto de outra forma mais portuguesa, mas por respeito ao astroPT não o faço).

    Tenho dito.

  8. Carlos Oliveira

    Frederico, tem razão.

    E penso que está de acordo com o post, que é um problema de percepção do “valor” do conhecimento.
    Eu tenho disponibilidade para pagar se der valor àquilo que vou comprar.
    Se não der valor, então não pago. E parece-me que isto é o que acontece na maioria das vezes. Não se dá valor ao conhecimento.

    Porque quem paga para ir ver a Jaciara, e quem paga para convidar a Jaciara, por exemplo, também poderia pagar para ver o Pedro Ré ou poderia pagar para convidá-lo a ir dar palestras, por exemplo.
    Da mesma forma que o Ministro que até acompanha o Figo à escola (e a escola faz “greve” nesse dia) também poderia acompanhar quem lá vai divulgar ciência.
    Mas à ciência, não se dá valor…

  9. Carlos Oliveira

    Já agora, quanto às sustentabilidades…

    Se outros países têm essa sustentabilidade social, então acho que Portugal também poderá ter. Não há razão nenhuma para não ter. Tem é que haver uma diferente mentalidade.

    Quanto à sustentabilidade económica, a mesma coisa. Se os outros a têm, Portugal também deveria de ter.
    O problema é que em Portugal não se sabe “vender” o valor da ciência, como mencionei no post.

    Por exemplo, eu adorava o Visionarium no ínicio, e fui lá várias vezes. Depois aquilo ficou basicamente ao abandono. Numa das vezes que lá fui, não andava ninguém, e vi 2 ou 3 seguranças em vários pisos. No piso de cima, do espaço, estava um segurança muito simpático, que queria ajudar, mas só dizia bacoradas. 95% do que ele explicou estava mal.
    Ou seja, tudo parece abandonado, não há ninguém a ajudar, e quem tenta ajudar não sabe o que diz. Qual é o valor que estão a incutir a essa divulgação da ciência? 0.
    Ainda assim, voltei lá 2 anos mais tarde, e percebi que continua abandonado, nem sequer havia seguranças, nem ninguém a ajudar em nada, e quando eu quiz comprar algo na loja, ela estava fechada, às escuras, e ninguém me quiz vender nada (mesmo comigo disponível para comprar, para pagar).
    Assim, é difícil haver sustentabilidade económica. Mas isso é porque não se sabe vender a ciência.

    Por aqui vejo o orgulho do conhecimento nas universidades (milhares andam todos os dias com camisolas da universidade e dos departamentos, o que dá imenso dinheiro em camisolas).
    Por aqui vejo nos museus (e já trabalhei num) toda a gente a querer ajudar, incluindo imensos voluntários que detém um elevado conhecimento daquilo que explicam, e sobretudo vejo bastante marketing e valor da marca. Vejo também as lojas à saída. Ou seja, os visitantes têm mesmo que passar pelas lojas, e sobretudo quando se leva crianças, é certo e sabido que elas vão querer comprar algo.
    Isto permite obviamente uma sustentabilidade económica. Porque sabem “vender” o produto científico, sabem lhe dar valor.
    E o público agradece, e compra.

  10. Roberto Pera

    Entendo que esta questão deve ser vista pelo lado positivo e não depreciativo.
    Não negando nada do que foi transmitido no post, acho que se deveria transmitir que em Portugal exitem pessoas, Cientistas, Astronomos que transmitem cultura científica sem cobrarem.
    Não me parece que as lamentações de que não nos pagam leve a algum lado.
    Não se pense também que isto é um problema português, nem restrito à Astronomia.
    A população em geral não valoriza a ciência, não reconhece de uma forma cabal na ciência o valor que ela tem. Veja-se o que aconteceu com tudo que envolveu a co-inceneração onde cientificamente ficou provado que era de longe a melhor solução.

  11. Carlos Oliveira

    Roberto, se interpretou o post como uma lamentação, está redondamente enganado.
    Eu não me lamento. Aliás nunca dou para o peditório dos “choradinhos”.

    Apontei um problema real, apontei uma solução possível (mudança de mentalidades), e assumi que eu próprio posso estar a contribuir para o problema e não para a solução, daí que assumo que talvez tenha que mudar de “estratégia”.

    Tudo isto é uma reflexão, e nunca uma lamentação.

    “acho que se deveria transmitir que em Portugal exitem pessoas, Cientistas, Astronomos que transmitem cultura científica sem cobrarem.”
    Isso foi o que foi dito no post. Esse é um dos problemas. Porque estão (eu e o astroPT incluídos) a contribuir para essa mentalidade de que a ciência nada vale.
    Leu o texto? :P

  12. sergio

    Carlos,

    Acho que está a ver as coisas de uma forma incompleta e simplista. Não é por ser grátis que deixa de ter valor. Alias, valor, é um conceito, preço é outro. São conceitos distintos mas que por muitas vezes andarem associados, se confundem.

    Achei piada à forma como vê o episodio do frigorifico… Será que foi o preço que criou a procura, ou não terá sido antes a divulgação, e a informação de que o artigo se encontrava em boas condições de funcionamento e disponível, para quem o quisesse? (algo que não estava presente quando não passava de um simples frigorifico usado abandonado na rua)

    Relativamente às marcas: é obvio que se pagam as marcas! Mas quanto custa (a uma empresa por ex) criar e manter essa marca? Quanto gastam as 2 principais Colas, em publicidade? Ou certas marca de carro (BMW, Mercedes etc)

    Os pagamentos às figuras públicas, para aparecer em eventos acontece também de forma natural, dada a publicidade e retorno (financeiro) que essas presenças geralmente garantem.

    Se o Carlos garantir a alguém, que com o seu saber, vai oferecer um retorno superior ao custo, vai facilmente ter o interesse de muita gente.

    Relativamente ao que se passa na NASA, ou museus noutros países, não passa de aplicação de técnicas comerciais para aumentar o espectro dos mercados alvos e desta forma as receitas e o interesse (passando por providenciar uma experiencia de “mero entretenimento” aos visitantes). Ir a um complexo científico e aparentar estar-se no circo, não é propriamente “nobre”, mas certamente será uma forma de conseguir mais receitas.

    Ter de vender o conhecimento, através de alterações de cosméticas é uma aberração, para qualquer pessoa que preze o valor dos conteúdos. No entanto, apostar nas “embalagens” é algo cada vez mais necessário para garantir a sobrevivência.

    Finalmente, se acha que por cobrar algo automaticamente introduz a noção de valor e que essa noção irá perdurar, então fico feliz por estar no ramo da ciência e não numa carreira empresarial.

  13. Carlos Oliveira

    Sérgio,

    O frigorífico foi-lhe só dada a informação do preço, e não das suas condições. Só mudou isso.

    Note que eu não discuto o “valor real”. Discuto sim a percepção que as pessoas têm desse valor.
    Até digo que é uma falsa noção de valor: “Ou seja, o subconsciente das pessoas atribui o valor a algo, mediante aquilo que paga por esse algo. É uma falsa noção de valor – o preço -, mas é o que as pessoas assumem ser verdade.”

    Não concordo que existe “circo” nos museus.
    Existe “circo” nos estádios de futebol, existe “circo” quando os “famosos” aparecem, existe “circo” nas palestras dos pseudo, existe “circo” até quando as câmaras convidam palhaços para abrilhantar a festa. Se calhar o problema da ciência é precisamente não haver esse “circo”.
    Os museus, por exemplo, quer em Portugal quer nos EUA são na sua grande maioria demasiado “sóbrios”, deviam ser muito mais interactivos, por exemplo.

    O que eu digo é que esse valor já existe, as pessoas é que não têm essa percepção do valor, porque é desvalorizado (gratuito). Ou seja, é preciso mudar a percepção das pessoas, de modo a elas saberem avaliar o produto pelo que ele é, e não pelo que pensam que é (em que o preço é sinónimo de qualidade).

    abraço!

  14. Emilio N

    Há outra questão a considerar (na minha modesta opinião).
    O conhecimento científico faz parte da Cultura e esta é pertença de toda a humanidade, sem ela não seríamos o que somos enquanto espécie. A informação biológica (DNA…) não chega, existe uma informação externa que carregamos connosco de geração em geração.
    Sendo assim o conhecimento cientifico deve estar ao alcance de todos. A sua divulgação por aqueles que o detêm deve ser de certa forma uma “obrigação moral”.
    Comparar isto com Quim Barreiros e afins que não passam de entretenimento medíocre (na maior parte dos casos) e que de cultural nada têm, não faz sentido.
    Quanto à receptividade das pessoas, aí o problema é outro. Educação e mais educação precisa-se. A educação cientifica nas escolas é uma caricatura daquilo que devia ser e por isso temos uma sociedade cheia de indivíduos sem espírito critico, sem capacidade para pensar de forma lógica e racional, o que de certa forma interessa às elites dominantes, mas isso é outra história…

    Dito isto, àqueles que de forma graciosa e apaixonada, contribuem para a divulgação do conhecimento científico, como é aqui o caso, só temos é de agradecer e dar força para que continuem.

  15. Carlos Oliveira

    Olá Emilio,

    Concordo com tudo o que disse, excepto neste ponto:
    “Sendo assim o conhecimento cientifico deve estar ao alcance de todos. A sua divulgação por aqueles que o detêm deve ser de certa forma uma “obrigação moral”.”

    Por poder ser “obrigação moral” é que estes deviam ter um maior valor, e deveriam ser assim valorizados pelo seu trabalho.
    Um enfermeiro, um médico, um bombeiro, ou um professor têm “obrigações morais” de educar, salvar, etc…
    Já um advogado, por exemplo, não terá essas “obrigações morais”.
    Quem recebe mais? Quem é mais valorizado? Quem se vira para si e lhe diz: “Este é o meu valor”, em que esse valor é superior ao outro exemplo? Um bombeiro ou um advogado?

    Esse é precisamente o problema.
    Quem é valorizado, por si próprio e pelos outros, é quem não tem essas “obrigações morais”.
    ;-)

  16. Alberto Fernando

    Embora concorde com muito do que o Carlos escreveu, há que ter em consideração outros aspectos:
    - A qualidade não se apregoa. Existe ou não.
    Um trabalho, ou uma prática continuada de qualidade será reconhecida como tal.
    Leva é tempo.
    Pelo contrário, algo que é apregoado como de qualidade, rapidamente passará à história, se não tiver essa qualidade..

    - A importância da ciência tem a ver com o impacte imediato que tem na vida das pessoas.
    Uma descoberta científica importante pode só vir a ter reflexos a médio ou longo prazo.
    Por isso, quem, no dia a dia, tem de preocupar-se com a sobrevivência, terá pouca inclinação a ligar importância a uma importante descoberta científica.
    “Primeiro viver, depois filosofar” é um princípio muito antigo e sempre actual.
    Só consome cultura quem criou condições de vida que lhe permitam outras actividades que não as da sobrevivência.
    Não podemos esperar grande interesse pela ciência numa sociedade pobre e onde o consumo de cultura nunca foi um paradigma.

    - Que as actividades de divulgação deviam ser pagas…concordo em absoluto.
    Mas não podemos ir pelo lado de não haver interesse por elas serem baratas ou gratuitas.

    - Quanto ao astroPT acho que é um excelente meio de divulgação e de presença.
    Há pouco tempo, o Carlos anunciou o milhão de visitantes.
    Quanto tempo levará a atingir o 2º milhão?

    - Penso que cada um de nós deve fazer o melhor que sabe para o enriquecer.
    O resto, a mudança de mentalidades, virá por arrasto e não por dizermos que elas têm de mudar.

    E para terminar um Feliz Natal para todos.

    Alberto

  17. Carlos Oliveira

    Olá Alberto,

    Concordo em (quase) tudo. Só discuto um ponto e faço-lhe uma pergunta.

    Note que não se está a discutir a qualidade real, mas sim a percepção que as pessoas têm dessa qualidade mediante o valor que pagam (vide exemplo dos médicos).
    O que é apregoado como tendo qualidade não passa à história. Isso é wishful thinking. Quanto é que as pessoas pagam todos os anos em leitura de búzios, astrologias, homeopatias, e “águas milagrosas”? Também não me parece que o Quim Barreiros seja o epicentro da qualidade musical, no entanto não é por isso que “passa à história”.
    Parece-me sim que essa sempre foi a maneira de pensar de quem está ligado à ciência: “eles vão acabar por desaparecer”. Mas essa estratégia não funcionou nos últimos 3000 anos. Porque haveria de funcionar agora? Como diria Einstein, tem que se tentar uma estratégia diferente, e não esperar que a mesma estratégia do “deixar andar”, que nunca funcionou, vá agora funcionar.

    “Que as actividades de divulgação deviam ser pagas…concordo em absoluto.
    Mas não podemos ir pelo lado de não haver interesse por elas serem baratas ou gratuitas.”
    Então qual é a solução para elas serem valorizadas?
    Pode-se pensar em “mais educação”. Mas note-se que nunca houve no passado tanta educação como actualmente, e no entanto continuamos a dar valor aos “vendedores de banha de cobra” e as actividades de divulgação científica valem (em termos de percepção popular) exactamente o mesmo de sempre: 0.

    abraço!

  18. Mário

    Penso que dar mais valor à ciencia so mesmo quando a ciencia se der valor a si mesma e deixar de criticar os pseudos. Existe na ciencia algo que lhe é desnecessário; arrogancia e egocentrismo, apesar de se apregoar que é para o bem comum. Só posso gostar ou amar os outros quando me aceito, compreendo e tento mudar o que está de errado em mim. Quando tenho um problema e digo que a culpa é dos outros, algo vai mal. Se falho em ver os meus problemas como sendo criados muitas vezes por mim mesmo, estou a ser egoista e pouco humilde.

    Pelo lado monetário, é pura inocencia, falta de espirito empreendedor e, soberba. Aqueles que dão palestras e não pedem dinheiro para o fazer apenas buscam o reconhecimento publico, querem ser adorados como deuses, vestem a pele de cordeiros e no fundo são lobos. Dizem que fazem por amor à camisola e no entanto apenas procuram o estrelato. A meu ver, a ciencia devia actuar como os futobolistas, quando eram pagos a migalhas e tinham de ter outro emprego, eram pessoas comuns, quando começaram a ganhar e cobrar pelo que fazem, passaram a ser deuses.

    E mais uma vez, por favor deixem de criticar os pseudos, façam o vosso trabalho ao vosso gosto, transmitam noticias e opinioes, mas deixem-se de andar a criticar os que não têm a ciencia no coração nem na cabeça. Não faz sentido e, parece-me que eles não vão ler as criticas que lhes são feitas. Eu sei que evito ler esse tipo de posts, não porque não têm piada ou razão mas sim porque já cança. É uma moda que não me veste bem e a meu ver nem ao AstroPT.

    Já agora, metam lá uns anuncios pequenos sem ocupar muito espaço. Ganhar dinheiro com o que se faz dentro da legalidade não fica mal, fica mal é roubar para ter dinheiro.

    Abraço e continuem o bom trabalho

  19. Carlos Oliveira

    Mário,

    Note que todo o artigo foi de auto-reflexão e auto-crítica. Não foi uma crítica aos pseudos, pelo contrário, foi sim um elogio aos pseudos que sabem usar essa percepção das pessoas a seu favor, enquanto a ciência não sabe fazer isso.
    Ou seja, neste caso, a ciência terá que aprender com pseudos, famosos, etc.

    “Aqueles que dão palestras e não pedem dinheiro para o fazer apenas buscam o reconhecimento publico, querem ser adorados como deuses, vestem a pele de cordeiros e no fundo são lobos”
    “A meu ver, a ciencia devia actuar como os futobolistas, quando eram pagos a migalhas e tinham de ter outro emprego, eram pessoas comuns, quando começaram a ganhar e cobrar pelo que fazem, passaram a ser deuses.”
    Estas 2 frases estão em total contradição. Então diz que os palestradores só fazem palestras gratuitas para serem adorados como deuses, e a seguir diz que se eles passarem a cobrar, passam a ser deuses.
    Não faz qualquer sentido.
    Então se o Mário diz que os palestradores só dão esse conhecimento público por quererem ser deuses, depreendo assim que o Mário preferia que os cientistas não lhe comunicassem qualquer conhecimento – só assim deixavam de ter “soberba”.
    Os comunicadores/divulgadores que têm prejuízo próprio ao comunicarem, afinal, na opinião do Mário, fazem isso porque querem ser vistos como deuses. Vê-se até pelo público que todas as semanas cantam o nome dos divulgadores e os seguem para todo o lado, certo? (é uma ironia)
    Acabe-se com qualquer comunicação de ciência, e acabe-se com o astroPT, porque na sua opinião só fazemos isto por motivos egoístas. Enfim…

    Quanto aos anúncios já os tentamos durante 1 mês há cerca de 2 anos atrás. E nenhum de nós gostou desse teste. Apareciam mais anúncios para divulgar os pseudos que outra coisa.

    Ninguém falou em “roubar”. Falou-se em valorizar o conhecimento.
    Leu o texto?

    abraço

  20. Jorge Fonte

    Grande documento de reflexão sobre a divulgação da ciência no mundo e particularmente em Portugal! Concordo, igualmente, com a resposta do Mbeki sobre o facto do interesse na divulgação científica não partir do público mas ter vindo a ser imposta pela própria comunidade científica e mais recentemente pelos governos.

    Antes de mais, por mais que não queiramos temos de conviver com a realidade que tão bem descreveste na tua reflexão. Portugal era há cem anos um país de analfabetos e como tal ninguém pode ter interesse por aquilo que não conhece.

    Por outro lado, o nosso ensino está muito direccionado para o chamado mercado de trabalho – dar às pessoas os conhecimentos básicos para desenvolverem uma profissão havendo até a ideia que alguns conhecimentos são inúteis ou desnecessários. No entanto, deixa-me contar aqui um diálogo que uma professora de línguas manteve com um aluno de uma escola do nordeste transmontano no qual o aluno dizia que não precisava de aprender a falar “estrangeiro” porque as ovelhas que guardava só percebiam em português. Esse é um dos aspectos mais fantásticos do conhecimento é que ele é inútil, principalmente para quem não o tem. Se o adquirires pode ser muito útil ou não! Esse aluno que não quis aprender línguas nunca vai sentir falta desse conhecimento que não tem, pois nunca lhe vai ser dada a oportunidade de ter, por exemplo, um emprego no qual terá de falar línguas mas se ele tivesse adquirido esse conhecimento, aparentemente inútil, poderia ser muito útil tanto profissionalmente como na vida privada. O problema do interesse pela ciência nasce de algum desconhecimento – ninguém pode estar interessado naquilo que não conhece. Assim, é totalmente explicável que nos países mais desenvolvidos haja mais interesse na cultura científica do que naqueles em que esse conhecimento não está tão propagado. No entanto, tal como referiu o Mbeki a comunidade cientifica e os diferentes governos tem tentado criar ou aumentar essa cultura cientifica através da maior escolarização e até através de programas como o ciência viva. É certo que, isto criou um hábito nas pessoas de usufruírem gratuitamente da divulgação científica o que será muito difícil de alterar no futuro. No entanto, já se fala da possibilidade de algumas dessas sessões começarem a ser pagas.

    Por outro lado, há que realçar o carácter impulsionador que o conhecimento científico tem tido no nosso bem-estar económico. As pessoas usufruem dos frutos do conhecimento sem perceberem quase nada da base desse conhecimento. Assim, podemos caminhar para uma sociedade ignorante mas tecnologicamente avançada.

    A moda de medir tudo em “dinheiro” tem-se alastrado. Agora já não se diz que n pessoas fizeram greve, diz-se a greve custou x ao país, não se diz n% de alunos reprovam no 10º ano, diz-se o insucesso escolar custa x aos cofres do estado. Já ninguém está interessado na qualidade do ensino ou no que determinado número de licenciados sabe ou conhece, mas sim qual a percentagem de pessoas no país são licenciadas, quantos têm mestrados ou quantos têm o nível equivalente ao 12º ano, independentemente do “conhecimento ou “saber” que isso representa.

    Por último, queria realçar um aspecto que considero muito importante. A utilidade do conhecimento. Ao vivermos numa sociedade tão ávida pelo rendimento, temo que muito conhecimento considerado inútil ou menos produtivo possa vir a ser desprezado.

    O que parece ser mais útil para a sociedade? Um agricultor que trabalha de sol a sol para produzir alimentos ou um tipo que fala de sombras em cavernas e escreve diálogos imaginários sobre o seu mestre que por sua vez vai dizendo por todo o lado “Só sei que nada sei”? Um trabalhador honesto que cumpre o seu horário de trabalho normal ou um “louco” que anda a brincar com prismas em salas escuras e em vez de plantar árvores de fruto se deita à sobra das macieiras a pensar sobre a lua?
    Na realidade o que realmente tem feito avançar este mundo são estes inúteis que em vez de terem uma vida produtiva se dedicaram simplesmente a pensar sobre coisas inúteis. ”

    Grande abraço

  21. Carlos Oliveira

    Olá Jorge,

    Acho que tens razão naquilo que dizes. Mas deixa-me complementar algumas das coisas que disseste.

    Acho bem que essas sessões passem a ser pagas, no entanto há uma grande diferença entre essas sessões, e o que eu faço quando vou a Portugal, ou o que o Guilherme de Almeida faz, por exemplo, ou o que o astroPT faz.
    É que segundo me parece vocês são pagos por essas sessões.
    Ou seja, as pessoas pagam-vos indirectamente (pagam impostos ao estado, e uma pequena parte desse financiamento é para isso).
    Não é um conhecimento gratuito. As pessoas é que não se dão conta disso, e deveriam dar-se conta disso.
    É a diferença entre as estratégias democrata e republicana: os democratas preferem pagar mais ao estado e o estado que aplique o $$ no que quiser, enquanto os republicanos querem pagar um minimo ao estado e preferem aplicar esse $$ da forma que eles próprios querem e vêem na altura.

    “podemos caminhar para uma sociedade ignorante mas tecnologicamente avançada.”
    Parece-me que já fazemos parte dela.
    Se amanhã toda a tecnologia desaparecesse, qual é o leitor do astroPT que saberia fazer um frigorífico, um telemóvel, ou um computador? Ou até electricidade…
    As pessoas hoje são meras utilizadoras da tecnologia, mas não a compreendem.
    Quem sabe como a TV funciona? Como é que uma pessoa a milhares de kms aparece numa “caixa” em minha casa, e como é que eu carregando num botão essa pessoa desaparece e aparece outra do outro lado do mundo?
    A maior parte das pessoas é totalmente ignorante sobre a forma como estas coisas diárias funcionam…

    Pois, mas a família do Newton era rica, e em adulto, ele passou a receber da universidade. Da mesma forma Herschel, por exemplo, tinha o Rei a pagar-lhe.
    Ou o Kepler, o Brahe, o Galileu, etc, tinham contribuições substanciais da “realeza” e pessoas bastante ricas.
    Platão era de uma família rica e poderosa. Sócrates tinha os “meninos ricos” a financiarem-no nas suas estimulantes conversas filosóficas. E Aristóteles tinha um pai médico que tratou o avô de Alexandre o Grande, casou com a filha do ditador supremo na altura, e ensinava a realeza da altura.
    Ou seja, todos eles eram financiados (não eram gratuitos). Além de todos eles serem vistos como pessoas de valor pelo que faziam.
    Essa percepção não existe hoje, talvez porque a ciência (e o conhecimento em geral), e muito bem, se popularizou. A popularização do conhecimento é algo que considero ser excelente e deve continuar. No entanto, essa mesma popularização levou a que as pessoas mentalmente não dêem tanto valor a essa ciência e a esse conhecimento. Enquanto dantes quem detinha mais conhecimento era valorizado (Platão ou Galileu), hoje quem detém mais conhecimento é desvalorizado (ler novamente o post).
    Nota que esta ideia começa precisamente… nas escolas. Os “nerds” são os que estão no “bottom of the food chain” nas escolas. Começa nas escolas, e vê-se por toda a sociedade (com algumas honrosas excepções: Bill Gates, Carl Sagan, etc).

    abraço!

  22. Alberto Fernando

    Alguns comentários intercalados:

    “Note que não se está a discutir a qualidade real, mas sim a percepção que as pessoas têm dessa qualidade mediante o valor que pagam (vide exemplo dos médicos).
    O que é apregoado como tendo qualidade não passa à história. Isso é wishful thinking. Quanto é que as pessoas pagam todos os anos em leitura de búzios, astrologias, homeopatias, e “águas milagrosas”? Também não me parece que o Quim Barreiros seja o epicentro da qualidade musical, no entanto não é por isso que “passa à história”.
    Parece-me sim que essa sempre foi a maneira de pensar de quem está ligado à ciência: “eles vão acabar por desaparecer”. Mas essa estratégia não funcionou nos últimos 3000 anos. Porque haveria de funcionar agora? Como diria Einstein, tem que se tentar uma estratégia diferente, e não esperar que a mesma estratégia do “deixar andar”, que nunca funcionou, vá agora funcionar.”

    ALBERTO>>Nem todos têm que ler Dostoievski ou livros de ciência.
    Também há lugar para os que lêem literatura de cordel ou revistas cor de rosa.
    Não é menosprezando estes que se elevam os que lêem literatura erudita.
    Não se trata de deixar andar.
    Mas apoucar uns não eleva os outros.
    O aumento de escolaridade terá necessariamente um aumento de leitores e um aumento de interesse pela cultura.
    Mas leva tempo.
    Então, é necessário puxar por aquilo que gostamos pela forma positiva e não denegrindo o que não gostamos.
    Porque aquilo de que não gostamos continuará a existir e a ter consumidores, queiramos ou não.

    “Que as actividades de divulgação deviam ser pagas…concordo em absoluto.
    Mas não podemos ir pelo lado de não haver interesse por elas serem baratas ou gratuitas.”
    Então qual é a solução para elas serem valorizadas?

    ALBERTO>> Devem ser valorizadas pela qualidade e pela presença constante.
    Se, na minha área, houver duas actividades de divulgação por ano, há uma grande probabilidade de eu não poder ir a nenhuma, apesar do meu interesse.
    Se houver 50, por certo que irei a algumas, como outros irão.
    E desses que irão, muitos irão voltar.
    E, quantos mais voltarem, mais essas actividades serão valorizadas.
    Esse é o caminho. Marcar presença.

    “Pode-se pensar em “mais educação”. Mas note-se que nunca houve no passado tanta educação como actualmente, e no entanto continuamos a dar valor aos “vendedores de banha de cobra” e as actividades de divulgação científica valem (em termos de percepção popular) exactamente o mesmo de sempre: 0.”

    ALBERTO>>> Os vendedores de “banha da cobra” têm vindo a fazer desde sempre, e agora utilizando os meios de comunicação, o seu trabalho de presença constante.
    Não gostamos, mas eles afirmam-se estando sempre presentes.
    À ciência e à cultura cabe fazer o mesmo:
    - Ter actividades;
    - Divulgá-las;
    - Fazer-se ver, ler e ouvir.

    Alberto

  23. Carlos Oliveira

    “Não é menosprezando estes que se elevam os que lêem literatura erudita.”
    Note que eu não menosprezei ninguém. Muito pelo contrário. Eu elogiei o facto dos pseudos e dos famosos saberem lidar com as percepções das pessoas. Critiquei o facto de quem está na ciência não o saber fazer.
    Ou seja, não menosprezei os que lêem “revistas côr-de-rosa”. Critiquei os que não as lêem por não saberem mostrar-se como estando ao mesmo nível dos outros (na percepção das pessoas).

    “Se houver 50, por certo que irei a algumas, como outros irão. E desses que irão, muitos irão voltar. E, quantos mais voltarem, mais essas actividades serão valorizadas.”
    Pode-se também argumentar em sentido contrário.
    O ouro só é valioso porque é raro.
    Uma presença do Cristiano Ronaldo é valiosa, precisamente porque pode acontecer uma vez na vida para essa escola. Se ele fôr lá todas as semanas, deixa de ser valorizado por isso, e tenho a certeza que os ministros deixam de aparecer com ele nas escolas…

    “À ciência e à cultura cabe fazer o mesmo:”
    Lá está, eu acho que à ciência e à cultura cabe auto-valorizar-se. Enquanto continuar a passar a mensagem que nada vale, então aos olhos das pessoas nada pode valer.
    É isso que tento dizer com esta minha frase: “se nem a própria pessoa dá valor ao seu conhecimento, não se pode esperar que os outros dêem esse valor.”

    abraço!

  24. Mário

    Claro que lí o texto e até gostei bastante. Até faço referencia aos pseudos, que o Carlos tanto prazer tem em atacar.

    Mário–>“Aqueles que dão palestras e não pedem dinheiro para o fazer apenas buscam o reconhecimento publico, querem ser adorados como deuses, vestem a pele de cordeiros e no fundo são lobos”

    Carlos–>”O Pedro Ré, o Guilherme de Almeida, e vários outros pertencentes à APAA, também não levam nada pelas palestras que fazem. E muitas vezes nem sequer têm “direito” a ser indemnizados pelas deslocações que fazem. Os organizadores nem se “lembram” dessas despesas, assumindo que estas pessoas só por divulgarem ciência então serão uns “coitadinhos” e não têm direito a serem reembolsados (ou seja, têm que ter prejuízo, e é se querem!). Há uma desvalorização total do conhecimento e das pessoas que o detém.Quando existem encontros de astronomia, os palestradores não são pagos.”
    Todos o fazem por amor à camisola? Não me parece. Mas se sim, tenho a lhe dizer que são seres humanos excepcionais.

    Mário–>“A meu ver, a ciencia devia actuar como os futobolistas, quando eram pagos a migalhas e tinham de ter outro emprego, eram pessoas comuns, quando começaram a ganhar e cobrar pelo que fazem, passaram a ser deuses.”

    Carlos–>”O conhecimento científico/astronómico é visto como tendo menos valor que um Curso de Metafísica, ou que uma Bárbara Guimarães a acenar, ou que uma Jaciara a aparecer nalgum lado, ou que um Figo a visitar alguma coisa.” Que a ciencia faça como o futebol, cobre dinheiro e no processo faz divulgação. Se isto não é suberba o que é?

    Como é que o mesmo fim é uma contradição? Parece-me que o Carlos se vê retratado, embora não veja como.

    “depreendo assim que o Mário preferia que os cientistas não lhe comunicassem qualquer conhecimento” não tente depreender nada, é pessimo nisso. Passo os meus dias a tentar acompanhar a ciencia e, a tentar entender o que vai mudando. Vai daí, venho todos os dias ao AstroPT, vou lendo o que me parece relevante e ignoro posts de critica abusiva. Sei por exemplo que o AstroPT, se “atrasa”, a dar algumas noticias, mas, nem por isso deixo de cá passar para ler mais um pouco.

    “Ninguém falou em “roubar”.”

    Só posso responder a isto desta forma:”Enquanto os pseudos vão ficando ricos, os cientistas vão-se queixando da falta de fundos para as suas equipas.” Desculpe, se isto não é roubar.

    Abraço

  25. Carlos Oliveira

    “Todos o fazem por amor à camisola?”
    <— os que eu referi, sim. O Guilherme de Almeida, por exemplo, farta-se de ter prejuízos nas deslocações que faz, para ir trabalhar de graça.
    O Zé Matos, como eu disse atrás, é o único que faz disso profissão. Não é “lobo”, não é “soberba”, é mesmo a profissão dele. E mesmo assim é mal pago (comparado com os pseudos ou famosos).

    “Que a ciencia faça como o futebol, cobre dinheiro e no processo faz divulgação. Se isto não é suberba o que é?”
    <— Como é que receber por trabalhar é sinónimo de soberba (divino, arrogante, mesquinho, que se acha superior)? Juro que não percebo…

    <— O Mário diz que o objectivo deles é para serem adorados como deuses, ao não levarem dinheiro. E a seguir o Mário diz que se levarem dinheiro, é para passarem a ser adorados como deuses. Isto é uma contradição.
    Se eu já sou “deus” por não levar dinheiro, não posso mudar e passar a ser “deus” ao levar dinheiro. Já o sou, por isso não posso passar a ser.

    “Sei por exemplo que o AstroPT, se “atrasa”, a dar algumas noticias”
    <— Será porque quem dá as notícias em 1º lugar é pago para isso? Ou seja, é o seu trabalho?
    Mesmo assim, a maioria das nossas notícias é dada 1º que o Público, por exemplo. E eles é que são pagos para dar notícias, não nós.

    <— Não percebo como isso é roubar. Os cientistas não sabem vender o seu produto, enquanto os pseudos sabem vender. Onde é que isto é roubar?

    abraço!

  26. Mário Neves

    Caro amigo Carlos!

    A tua reflexão é verdadeiramente importante, pois tocas em vários aspectos, dos quais realço a questão da mentalidade.

    Realmente, na minha perspectiva, esta é a verdadeira questão que nos tem atirado para a cauda da Europa.

    Nós damos mesmo mais valor e importância ao que é supérfluo, ao que é inócuo, ao que proporciona grandes parangonas, à pseudociência.

    Mas não me parece que tu tenhas contribuído, através da AstroPT, para alimentar esta situação!

    Pelo contrário, tu tens sido um grande difusor de conhecimento científico e deves continuar a fazê-lo, sempre com o rigor de sempre (no actual contexto de crise, julgo que não será boa política colocar o acesso ao site a pagar).

    Mário Neves

  27. Mário

    A soberba está no que o Carlos se esqueceu de copiar:

    “O conhecimento científico/astronómico é visto como tendo menos valor que um Curso de Metafísica, ou que uma Bárbara Guimarães a acenar, ou que uma Jaciara a aparecer nalgum lado, ou que um Figo a visitar alguma coisa.”

    A soberba está no facto de apenas se fazerem valer do estatuto que os faz “superiores”. Se se paga para os ver e, cobram para serem vistos, isto é soberba. São superiores no sentido físico. Apenas vendem a sua imagem, aparecendo e acenando. Actuam com altivez, arrogância e orgulho na sua imagem.

    “<— O Mário diz que o objectivo deles é para serem adorados como deuses, ao não levarem dinheiro. E a seguir o Mário diz que se levarem dinheiro, é para passarem a ser adorados como deuses. Isto é uma contradição.
    Se eu já sou “deus” por não levar dinheiro, não posso mudar e passar a ser “deus” ao levar dinheiro. Já o sou, por isso não posso passar a ser."

    Quem lhe disse que não? Se o Carlos fosse "Deus", era omnipotente, seria o mesmo Deus ganhando ou não. A diferença está, no ganhar ou não, e não, em ser Deus ou não. Faço-me entender? O valor está em saber aproveitar as oportunidades ao máximo. Divulgando ciência e sendo "idolatrados". Se os mesmo que não ganham dinheiro a divulgar "por amor à camisola", passarem a pedir muito para o fazer, passam a ser verdadeiros senhores e senhoras, e, até certo ponto, mesmo deuses. E nesse processo fala-se ciência.

    "<— Não percebo como isso é roubar. Os cientistas não sabem vender o seu produto, enquanto os pseudos sabem vender. Onde é que isto é roubar?"

    Carlos, decerto já ouviu falar de quem venda águas milagrosas tiradas directamente da torneira, ou, alguém apregoar kits de sobrevivência para o fim do mundo. Isto para mim é enganar para roubar(vender). Se um pseudo vende: “Os seres luminosos proporcionam um trabalho profundo do coração actuando no DNA espiritual e efectuando a conexão e activação de várias fitas de DNA“, isto é enganar para roubar(vender). Banha da cobra é roubo e engano. O produto dos cientistas não é roubo, mas que não o sabem vender, lá isso não sabem.

    "“Sei por exemplo que o AstroPT, se “atrasa”, a dar algumas noticias”
    <— Será porque quem dá as notícias em 1º lugar é pago para isso? Ou seja, é o seu trabalho?
    Mesmo assim, a maioria das nossas notícias é dada 1º que o Público, por exemplo. E eles é que são pagos para dar notícias, não nós."

    Isto não foi critica ao AstroPT e, o Publico como "jornal" cientifico não me parece muito profundo. E mais uma vez, façam uso dos vossos conhecimentos e noticias para ganharem algum, quanto mais não seja para pagar alojamento web. Não custa nada e, sempre podem adicionar keywords para ir eliminando anúncios pseudo. Como dizia alguém por aqui, mudem. Não esperem que a mesma táctica funcione quando já provou não funcionar. Os pseudos e famosos ganham dinheiro a vender falsidades, que a ciência saiba vender a verdade.

    Abraço muito grande. já agora vê lá se aceitas o pedido de amigo no facebook.

  28. Carlos Oliveira

    Juro que continuo sem perceber algumas coisas…

    O Mário usou “soberba” para definir aqueles que “dão palestras e não pedem dinheiro”. Agora afinal a soberba já é característica dos “famosos”?
    De qualquer modo, também não os caracterizo assim. Para mim, eles sabem vender o seu produto e a sua marca.

    Se eu sou homem, e não levo dinheiro por isso; não será por passar a levar $$ que passo a ser homem. Já sou homem.
    Se eu aqui sou convidado para ir dar uma palestra ao Museu X, e me pagarem, isso não faz de mim um Deus. Simplesmente pagam-me pelo meu trabalho e pelo tempo despendido.

    ok, já percebi o sentido de roubar. Concordo!

    Nós estamos abertos a boas ideias.
    Essa ideia dos anúncios Google, o Nuno colocou-a em prática há uns anos. Testamos. Ele perdia tempo a estar constantemente a inserir keywords, mas anúncios que não queriamos estavam sempre a aparecer. E ainda tivemos que ouvir as reclamações de alguns leitores do astroPT que não queriam estar a ver e a ouvir os anúncios. Por isso, desistimos
    :P

    O alojamento, o domínio, e não sei que mais, os “coordenadores” vão pagando.
    Por exemplo, a Vera pagou para 2010. Eu esta semana paguei o domínio para 2011. É pouco. Paga-se bem.
    O meu problema é a percepção que as pessoas têm do conhecimento gratuito. E não as despesas que temos
    ;-)

    Facebook: o astroPT já aceitou o seu pedido de amizade. Quanto a mim pessoalmente, eu sou sincero: tenho dificuldade em aceitar quando não sei nadinha sobre as pessoas (do seu perfil, continuo sem saber quem é).
    ;-)

  29. Mário

    “Facebook: o astroPT já aceitou o seu pedido de amizade. Quanto a mim pessoalmente, eu sou sincero: tenho dificuldade em aceitar quando não sei nadinha sobre as pessoas (do seu perfil, continuo sem saber quem é).”

    Sou aquele chato do astropt…

  30. Carlos Oliveira

    Não me parece que seja chato…

    Eu adoro discutir / partilhar ideias.
    Os meus alunos podem-lhe confirmar que prefiro passar uma aula a discutir assuntos, e a deixá-los discutir entre eles (limitando-me a guiar a discussão e a contrapôr argumentos), do que propriamente a fazer discursos.

    Se é verdade que na licenciatura em Portugal, a ideia era que aprendíamos a ler livros/sebentas, já na licenciatura no Reino Unido a ideia foi que a aprendizagem faz-se com os outros e após a discussão dos assuntos. Prefiro esta última forma de ensino e aprendizagem
    ;-)

    Daí que gostava que houvesse mais participação/comentários no blog. Porque acho que aprendiam mais, do que somente a ler as notícias…
    O que não quer dizer que eu não vá discutir e avaliar os argumentos… mas sem isso, acho que pouco se aprende.
    ;-)

    Mas, voltando ao Facebook, isso não me diz nada sobre a pessoa em si… ;-)

  31. Cristiano

    O problema não é na busca (a ciência), é no fim (a utilidade prática dela no dia a dia).

    As pessoas valorizam mais a prática do conhecimento que a busca pelo mesmo.

    A questão do valor não é algo subconsciente. É o fruto de uma pesquisa de vida. Aprendemos, com a experiência, que coisas “de marca” (a mais caras) são, geralmente, as melhores. Servem e duram mais.

    Claro que essa experiência, como muitas outras, falha nas exceções.

    Carlos diz:
    “O que é de graça é desvalorizado totalmente.”

    Entenda o porquê disso, usando uma lógica reversa:

    “Valoriza-se mais o que se paga mais do que o que não se paga nada.”
    Ou
    “Lamenta-se mais o que foi ganho com duro trabalho e depois foi perdido do que o que foi ganho de graça (achado na rua, por exemplo) e que se perdeu.”

    É a mesma lógica da experiência de vida. Você preferiria um notebook japonês ou um brasileiro? Eu preferiria o japonês, óbvio! E olha que eu sou brasileiro.

    Claro que, depois, o notebook brasileiro poderia se mostrar o melhor do mundo, mas não sou eu quem tem que provar que ele é o melhor. É quem o faz (o fabricante brasileiro).

    Marca, como você apontou nos exemplos das celebridades, tem muito a ver com o instinto humano de associar coisas.

    Associamos o vermelho ao sangue, por isso ele é usado em sinais de cuidado, alerta (trânsito).

    Associamos o preto ao medo do desconhecido, por isso é o preferido nos filmes de terror (e nas roupas de Matrix).

    Essa noção é algo difícil de dominar. A ciência, então, luta contra a origem humana: o animal irracional dentro de nós.

    Quanto ao povo não valorizar o trabalho dos astrônomos… Isso tem muito, mas muito a ver com a idéia que o povo tem da utilidade da astronomia. Não é fácil mostrar para um pai de família, cheio de dívidas, que seria bom para o filho dele saber mais sobre o universo que nos cerca.

    Esse é um desafio e tanto pros cientistas (astrônomos):

    Mostrar a relação universo/comida na mesa.

    A meu ver, o problema é de comunicação. Ou pior: de preconceito mesmo.

    Cientistas, por tanto saber, se colocam num patamar acima dos meros mortais (leia-se “crentes”).

    Estes, sentindo que são inferiorizados, devolvem o desprezo, assumindo que cientistas são “uns loucos, a se ocupar por coisas vãs, como átomos e estrelas”.

    A meu ver, é assim que um vê o outro. Um subestima o outro.

    O povo é “supersticioso” e os cientistas são “loucos, que só ligam pra coisas insignificantes” (insignificantes para o dia a dia do povo, para o prato na mesa do povo, para as contas a pagar – isso na visão do povo).

    Carlos,

    Acho que estas confundindo um pouco as coisas. O ar ainda é de graça (ainda), e se nos falta um minuto que seja, logo nos lembramos o quanto ele nos vale: ele não tem valor monetário, mas vale a própria vida.

    A ciência tem o seu valor. Mas os próprios cientistas é que não sabem esse valor e/ou não sabem passar esse valor para o público. É aí que está o problema: nos cientistas, não no público.

    O notebook brasileiro é o melhor do mundo? E daí? Até que me provem isso, comprarei o japonês (por que não compraria?).

    Ou você acha que as pessoas devem se arriscar a comprar o que não conhecem, só por causa das exceções? Isso não seria prático. Seria temeroso! Mais: seria burrice! Só se arrisca quem tem $$ pra dar de graça em testes. Eu não tenho, então só compro de marca (quando posso). É a minha única segurança de que o que gastei não foi em vão. Mesmo que o melhor notebook do mundo seja o brasileiro, logo ali do lado do japonês, eu pego o japonês.

    Quem afirma deve provar, não quem ouve o afirmado.

    Os cientistas que provem ao povo o valor da ciência (não para eles mesmos, os cientistas, e sim para o povo), e que o façam de uma forma que todos entendam.

    Carl Sagan sabia fazer isso muito bem. Pena que o exemplo dele não foi seguido por mais ninguém.

    Estou errado nessa última afirmação? Então cadê os demais “Carl Sagan” desse mundo? Não estou vendo nenhum. E se eu, que busco notícias sobre ciência e astronomia, não os vejo, quanto mais o cara que fica às sextas feiras numa mesa de bar, falando de futebol, carro e mulher (ou seja, o cidadão comum)?

    E se me dizem que Stephen Hawking é o novo “Carl Sagan”, sinto em dizer que o povo mesmo, nem sabe quem é esse cara. Inclusive, o povo, me parece, já esqueceu a muito de Carl Sagan. Isso é porque não há mais divulgadores de ciência como ele, e não porque o povo se esquece das coisas. O povo já esqueceu o Menudo, os Beatles, o Michael Jackson, o Bee Gees. Esqueceram-se deles então esquecem de qualquer coisa.

    É a ciência quem deve mudar o povo, e não o contrário. E tem que fazer isso o tempo todo, ou então o povo se esquece.

    É aí que está o problema. E nisso, concordo com o que Mário disse (comentários 7 e 18).

    Mas parece-me que o Carlos não entendeu o que Mário quis dizer, insistindo no valor que os próprios cientistas dão ou não dão a ciência, e não no problema de comunicação ou de preconceito mútuo entre as “classes” cientistas/leigos. Não é que os cientistas devem dar mais valor a ciência. Eles devem fazer o público ver o valor que ela já tem, e que já é muito. E fazer isso bem.

    Também concordo com o comentário 16 (Alberto Fernando). Qualidade ou tem ou não tem. E com o comentário 22 (Alberto Fernando). A massa gosta de astrologia e jogadores de futebol, e por isso não adianta muito dizer: “Ei! Por que vocês gostam de todas essas besteiras e coisas inúteis? Temos aqui a ciência, que é bem legal e muito útil! Venham ver!” – Isso é como xingar o cliente e depois querer que ele compre algo na sua loja.

    É disso que estou falando. Preconceito e separação em “classes” cientistas/leigos.

    Diminuindo as diferenças, aumenta-se a divulgação da ciência. Todos ganham. Leigos e cientistas.

    E perdão pelo comentário tão longo.

  32. Carlos Oliveira

    Cristiano,

    Não acho o comentário longo. É mais pequeno que o meu post
    ;-)

    Concordo em tudo.

    Esta sua frase penso que resume todo o comentário: “Mas os próprios cientistas é que (…) não sabem passar esse valor para o público.”
    Isto é precisamente o que digo por todo o texto, e nos meus comentários.
    É uma auto-reflexão, e uma auto-crítica, de que nós não estamos a conseguir passar o valor da ciência. Nós damos a entender que somos uns “coitadinhos” que fazemos as coisas de graça, por egocentrismo de ter público, porque na verdade a ciência nada vale.
    A minha questão é: como mudar as mentalidades? Como darmos a entender que a ciência vale mais para o pai de família que o programa Big Brother na TV?

    Provavelmente é preciso focar mais as “Vantagens da exploração espacial” e da investigação científica, na vida diária das pessoas.

    Carl Sagan tinha uma imagem de marca. Muito própria dos filmes de Hollywood. Ou seja, as pessoas não vão ver tanto o filme, mas este actor ou aquela actriz. As pessoas queriam ver o Sagan porque ele era excepcional a explicar.
    E o Sagan mudou a mentalidade de toda uma geração, sobre a forma de aprenderem e valorizarem a ciência e a astronomia (e Sagan não fez isso com actividades gratuitas – ele era pago).

    A minha questão é: como fazer isso de novo?

    (note-se também que podem existir 100 Sagans no mundo actualmente, só não têm um programa de TV num país de 300 milhões de pessoas. Podem haver Sagans perdidos, a fazerem palestras gratuitas mensalmente para 30 pessoas. Esses nunca vão mudar a mentalidade de uma geração sobre o quão fantástica é a ciência)

  33. Rogério Gonçalves

    Quanto vale a ciência e o conhecimento?

    Endereço os meus parabéns e felicitações por mais um post de excelente reflexão, que mereceu mais de 30 comentários também vivos de interesse, concordando aqui e acolá com muitos dos conteúdos que não vou enumerar, mas que partilho no essencial com a reflexão do Prof. Carlos Oliveira.

    Sobre o tema tenho algo escrito e compilado já lá vão mais de 15 anos, onde concluí, que a ciência e o conhecimento, tal como os bons sentimentos são das únicas coisas válidas da vida dignas de serem partilhadas e não quantificáveis em preço.

    Sem pretender ser excêntrico, prefiro deter o acesso à ciência, ao conhecimento e às tecnologias, do que a uma soma milionária de dinheiro e ignorando o modo válido como usá-lo. O que não é o caso.

    Reportando-me comparativamente a Portugal com outros países nesta matéria será inglório qualquer referência e o post já disse o necessário.

    Facturar ciência e conhecimento? Porque não? Há que descobrir formas de o fazer e o marketing adequado. Não vou sugerir ideias para não vir a ser responsabilizado

    por algum eventual insucesso.

    Em alguns livros recentes também Best Sellers, Factor Atracção e o Segredo (atenção pseudo-ciência) cita algumas interessantes também facilmente aplicáveis. Como exemplo: Cursos via Email.

    A ciência e o conhecimento, dificilmente será um “produto” isolado. Estão integradas em todos os outros produtos que diariamente consumimos, porventura poderiam ter uma ligeira taxa para a investigação científica e a qualidade, canalizada depois para os diferentes ramos da ciência.

    Em Portugal nos anos 68 a 70 exercia a profissão de programador informático; no essencial investigava capacidades do hardware, estudava as necessidades das empresas na automatização administrativas, elaborava o software (Conjunto de instruções) a serem lidas no computador (em cartões perfurados). Este trabalho inicialmente era integrado sem custos na venda do hardware. Até que alguém entendeu da necessidade de começar a facturar também esse trabalho e começou por ser medido a 20$00 cada instrução ou (palavra). Já pagava os ordenados à época. Caro Professor não aplique a ideia de facturar à palavra, pois alguns posts ficariam caríssimos aos leitores.

    Quanto às mentalidades a meu ver só evoluem se virem a necessidade para tal. “A necessidade é a mãe da criação” como li algures. Ou a necessidade aguça o

    Engenho. Para terminar e com muita desilusão pela sociedade portuguesa, constato que ao contrário do que seria espectável é conduzida de uma forma

    sem verdade, sem ética , irresponsável expondo as populações mais indefesas à mercê de todo o tipo de saques com assinatura da própria Autoridade.

    Com esta crise de valores instalada, a ciência e o conhecimento até podem incomodar. Neste contexto explica-se as opções que políticos e populações escolhem diariamente.

    Com amizade os meus votos de uma Quadra Festiva Feliz extensivo a toda a equipa do astroPT e um próximo Ano 2011 com óptimas notícias do espaço tornando assim também o nosso planeta mais próspero.

    Abraço

  34. Carlos Oliveira

    “A ciência e o conhecimento, dificilmente será um “produto” isolado. Estão integradas em todos os outros produtos que diariamente consumimos”

    Se calhar é por aí.
    A percepção popular de ciência é que é sobre ideias abstractas, que são aplicadas num laboratório por cientistas àparte da sociedade. As pessoas nem se lembram que o carro que conduzem funciona com base na ciência, que a pasta de dentes que usam diariamente foi desenvolvida por cientistas, que a explicação para estarem presos ao solo e não voarem, é dada pela ciência.
    A percepção popular da astronomia, é que é sobre estrelas que estão longe, e sobre buracos negros que são conceitos abstractos. Não percebem que a gravidade é explicada pela astronomia, que existem rovers em Marte feitos por humanos devido ao engenho de mentes astronómicas, etc.

    Se calhar falta a ligação emocional à ciência, que existe no caso dos famosos, por exemplo.

    abraço e Bom Natal a todos!!

  35. Rui C. Barbosa

    Quanto vale a Ciência? Não sei se será possível responder a essa pergunta. Para mim, terá um valor impossível de calcular. O grande problema que enfrentamos hoje em dia na divulgação da Ciência e nas actividades científicas em geral, é que o conhecimento está disseminado por todo o lado. Outro grande problema, e este será o mais importante, é dizer às pessoas que conhecimento tem interesse e que conhecimento não passa de lixo. Por outro lado, será que as pessoas estão dispostas a saber isso?

    É óbvio que se deveria cobrar pela divulgação da Ciência; o grade problema é que com as inumeras fontes de Ciência que existem, esta cobrança torna-se quase impossível. Ou se sabe o verdadeiro valor de quem divulga a Ciência e tem-se consciência de que esse valor deve ser «pago» ou então quem quer divulgar Ciência dessa forma morre de fome.

    Este problema é generalizado e acontece no dia-à-dia. Repara o exemplo dos Optometristas em Portugal. A maior parte da ópticas oferecem consultas «gratuítas» e muita gente ainda torce o nariz a isso, apesar de ser um trabalho de qualidade que ali é feito. Se alguma óptica colocar o anúncio de que as suas consultas de Optometria são pagas, poucas são as que fará.

    Um outro exemplo… o Boletim Em Órbita leva-me centenas e centenas de horas por ano para fazer. Tem sido assim há quase 10 anos. Já por várias vezes pensei se vale a pena o esforço de estar a escrever todos os meses aquela que é a única informação detalhada em português dentro do género. Mesmo assim, tenho vindo a assistir a um decréscimo no número de pessoas que se interessam pelo assunto. O Em Órbita existe porque tenho gosto em escrever sobre o assunto. Cobrar o Em Órbita seria o fim do projecto!

    Cobrar a Ciência nos formatos que ela é cedida no astroPT não sei se teria muita adesão tendo em conta que as fontes estão disseminadas por essa rede, apeaar da qualidade de muitos dos textos ser dúbia.

    Um abraço!

    Rui C. Barbosa
    Braga – Portugal

  36. Carlos Oliveira

    Pois Rui, tu também fazes o Em Órbita de graça já há muitos anos…

    Lá tá, perdes imenso tempo, e não és valorizado por isso
    :(

  37. Jorge Fonte

    Olá Carlos

    No meu comentário quis passar duas ideias: – A primeira é que o conhecimento não tem preço – não é mensurável quanto pode valer uma palestra ou uma sessão de astronomia. Podem servir para “divertir” durante uns minutos algumas pessoas que rapidamente esquecem tudo o que ouviram ou motivar uma criança ou adolescente para o estudo das ciências e torna-lo num dos investigadores que criarão uma nova forma de aproveitamento energético que revolucione completamente o nosso mundo e a maneira como vivemos. Por exemplo, quanto vale a invenção da luz eléctrica (Lâmpada incandescente)?
    A segunda é que para haver interesse na ciência primeiro tem de haver um conhecimento básico sobre os temas e, em portugal ainda estamos nesta fase, a estimular esse interesse para que as pessoas comecem a visitar museus, centros ciencia-viva, etc… Por essa razão, como disse, as pessoas não estão preparadas a pagar por esses serviços, que por vezes são pagos indirectamente.

    Aos monitores ou agentes portadores desse conhecimento é paga uma verba no caso das actividades de CV verão, que no fim pouco acrescenta aos gastos com as deslocações, alojamento, etc… e para o ano ainda vai ser pior com o fim das Scuts…
    Outras vezes, também na Orion por força de protocolos e outros pedidos os membros da associação têm-se deslocado a escolas de forma gratuita pagando do seu bolso as deslocações efectuadas. Um exemplo de actividade que envolvia muita gente a trabalhar de graça foi o jantar com cientista no qual vários membros da Orion cozinhavam, serviam à mesa, ligavam às pessoas para que pudessem ter um número de assistência aceitável para se realizar a actividade que além disso contava, muitas vezes, com a participação gratuita dos palestrantes. No teu caso, o trabalho que tens feito neste blog não tem preço. Mas também não sei como torna-lo rentável economicamente.

    Abraço

    Continuação de bom trabalho

  38. Carlos Oliveira

    Olá Jorge,

    Deste um exemplo interessante, que vou pegar nele: Jantar com Cientista.
    ;-)

    No Jantar com Cientista as pessoas pagavam. Ou seja, havia essa noção de valor.
    Claro que pagavam muito pouco, só pelo jantar, e basicamente só o preço de custo, mas sempre era um valor simbólico, que influencia bastante em termos de psicologia. O simbolismo é algo que nos influencia. Ou seja, quem ia assistir, sabia que tinha que pagar um determinado valor… que a actividade era valorizada.

    É óbvio que, como simbólico que era, o preço era muito inferior ao real preço da actividade, e era inferior ao trabalho despendido. Tenho a impressão que sempre que me convidaste, por exemplo, gastamos mais em despesas de telemóvel, do que o preço da actividade. Além de que, como bem disseste, quem trabalhou na cozinha, por exemplo, não viu o seu trabalho valorizado, muito pelo contrário… ficaram a perder tempo e dinheiro.

    Mas, no mínimo, havia esse simbolismo do preço. Não era de graça.
    E isso é importante… até para ti, organizador, em “termos mentais”.
    Lembras-te por exemplo de como tu e o Vieira ficaram chateados de quem apareceu só depois do jantar, para não pagar o jantar e só ouvir o palestrador?
    Vocês não ficaram chateados porque entraram menos 10 euros. Não é o $ que conta. Vocês ficaram chateados porque alguns “contornaram as regras” (o tal chico-espertismo) de modo a terem o proveito de graça à custa de todos os outros que seguiram as regras.

    O mesmo se passa nas palestras que referi e até no astroPT.
    As pessoas querem ter todo o conhecimento, mas não querem valorizar esse conhecimento.
    Mesmo que fosse um preço simbólico, já havia a noção de que era a pagar.
    Exemplo: se as pessoas que fossem ver uma palestra do Pedro Ré pagassem 5 euros, ou 1 euro que fosse!, mentalmente já sabiam que tinham que pagar pela actividade. A actividade tinha um valor. Não seria totalmente desvalorizada (notem que o valor não reflecte a qualidade, o valor fica na mesma muito aquém da qualidade, mas ao menos já era minimamente valorizada).
    E se todos dessem 5 euros, que é um valor muito baixo para todos, se estiverem 20 pessoas já dá 100 euros, o que dá para pelo menos pagar as despesas de deslocação, por exemplo, e tempo despendido a construir/pensar na palestra.
    Ou seja, é um exemplo de “união faz a força”. É um valor simbólico para o evento, é um valor baixo para cada pessoa que paga, mas já dá para pagar todas as despesas do evento (o palestrador já não é visto como um “coitadinho”, porque tem prejuízo de propósito), e sobretudo dá para mentalmente a pessoa assimilar que a actividade é valorizada.

    abraço!

  39. Frederico Cardigos

    @Carlos Oliveira: Eu pagaria e bem para ouvir o Pedro Ré. Infelizmente, já há muito tempo que ele não vem à Horta (Açores) dar uma das suas magníficas e holísticas palestras. Fica a dica ;-)
    Abraços e Felizes Festas para todos!

  40. G.Mbeki

    É bom ver que a conversa continua acesa, e por isso vou atirar mais algumas achas para a fogueira, a ver se temos lume até à noite de Natal:

    - Sobre a profissão de comunicador de ciência: tal como uma andorinha não faz a Primavera, o facto do José Matos (e mais alguns por cá, mas muito poucos) viver da divulgação científica não faz dela uma profissão. Até o IEFP listar a profissão “comunicador de ciência”, ou que ela apareça numa próxima revisão do ISCO, não creio que possamos dizer que essa profissão “existe”;

    - Sobre a legitimidade e sustentabilidade da comunicação de ciência: olhando para a história da divulgação científica, a profissão de comunicador de ciência (o tal tradutor entre o mundo científico e a sociedade) continua a só fazer sentido quando esse comunicador está associado a uma instituição científica. Do ponto de vista dos estímulos económicos, é o único sítio onde a sua existência é sustentável (é suportada pelo interesse da própria instituição científica), e é também o único sítio é verdadeiramente legítimo, porque essa pessoa está em contacto directo com os produtores de conhecimento científico. Num mundo ideal os comunicadores de ciência seriam os próprios cientistas, que veriam essa missão incluída nas suas tarefas diárias – e apesar de isso até ser uma discussão relativamente viva em PT, incluindo revisões do estatuto da carreira docente do ESup, não é este o espaço (ou o post) certo para desenvolver essa discussão;

    - Sobre cachet, valor, preço, mercados e modo 2: pegando no excelente comentário feito mais acima pelo Sérgio, é importante não confundir valor com preço. Até porque o valor percepcionado da Ciência em PT é bastante alto, a confiar nos últimos resultados do eurobarómetro. Mas isso não significa que as pessoas estejam dispostas a pagar um preço pela Ciência, basicamente porque a divulgação científica (até hoje) não é um mercado. Não existe muita procura, a oferta está dependente de estímulos não económicos, e no dia em que os governos deixarem de se interessar por esse assunto, as poucas pessoas que conseguem viver disso terão de procurar outra profissão. Poderíamos pensar se o chamado modo 2 de produção científica vai alterar esta situação – mas na verdade acho que não, vai simplesmente reforçar a ligação dos comunicadores de ciência directamente às instituições científicas;

    - sobre visitas a museus, quim barreiros e culturas: os números de visitantes não podem ser atirados como foi feito na resposta #3: pegando no caso dos EUA (e para trazer estes números para a discussão era preciso fazer as correcções de escala), é preciso ver quantas dessas 600 milhões de visitas são feitas a museus científicos, e depois disso, saber se esses museus científicos são ou não deficitários no fim do ano (duvido que não sejam); e depois comparar esses números de visitas a museus com outros eventos culturais (pois é também importante não esquecer que a discussão original da divulgação científica passava pela ideia de colocar a cultura científica no mesmo nível de reconhecimento que as outras culturas eruditas (arte, história, a pintura, etc.). E neste sentido, não existe uma cultura boa ou uma cultura má (um quim barreiros ou um pavarotti): existe apenas uma cultura que a maioria da população valoriza, e uma outra que quer ser valorizada…

  41. G.Mbeki

    E é claro que a pintura faz parte da arte, desculpem a redundância…

  42. Carlos Oliveira

    Mbeki,

    Penso que o 1º ponto é irrelevante. Pagam-me pela astrobiologia. Existem muitos astrobiólogos. Mas também não existe essa “profissão” por si, porque nem sequer existem licenciaturas em astrobiologia.

    O 2º ponto, discordo.
    Quando os cientistas “entraram na sala de aula”, foram um desastre. Assim como quando somente os educadores “entraram na sala” foram um desastre. Ou seja, a ideia que retiro da história da educação, e das suas inúmeras reformas, é que tem que haver um meio-termo.
    O mesmo para os comunicadores. Se estamos à espera que sejam só os cientistas a fazerem isso, vai dar asneira (penso que os problemas que a NASA anda a ter, são devido a isto. E penso que a história da ESA neste aspecto, também é um exemplo claro do mau planeamento feito nesta área); se estamos à espera que sejam só os jornalistas, por exemplo, a fazerem isso, sem ligação aos cientistas, vai dar asneira (também não faltam exemplos neste blog sobre isto).
    Concordo que o comunicador, muito provavelmente, terá que estar ligado a uma instituição científica, para ter todos os privilégios inerentes a esse factor, nomeadamente poder conviver com cientistas, poder ter acesso aos artigos científicos, e poder estar por dentro de toda a envolvência directamente relacionada com as experiências.

    “no dia em que os governos deixarem de se interessar por esse assunto, as poucas pessoas que conseguem viver disso terão de procurar outra profissão.”
    Precisamente. As pessoas não deviam estar dependentes do estado para perceberem que têm que pagar pelo trabalho dos outros.
    Penso que deveria haver uma mudança de mentalidade, de modo às pessoas valorizarem quem lhes fornece algo – neste caso, conhecimento.

    Note que eu falei em Museus de Ciência, e também de Arte (Guggenheim). Vai dar ao mesmo.
    O certo é que em 300 milhões de pessoas nos EUA, há 600 milhões de visitas a Museus. Na Finlândia, existem 5 milhões de pessoas, e visitam o Museu 5 milhões de vezes por ano. Em Portugal, são 10 milhões de pessoas, e o melhor que conseguiram foi 1 milhão de visitas num ano. Os números não enganam.
    Como eu disse, dá-se mais valor aqui, provavelmente porque se tem uma melhor experiência nos Museus. Eu sei que quem visitava o Centro de Ciência onde trabalhei, em Baltimore, saía “nas nuvens”. E por isso, voltava. Fossem “pessoas em geral”, fossem mesmo os cientistas que nos visitavam. Já em Portugal, dei o exemplo do “Centro de Ciência”, Visionarium, onde a experiência foi completamente ao contrário.
    Não me importava de pagar 30 euros para entrar no Visionarium, se tivesse uma experiência similar ao que tinham os visitantes no Centro de Ciência de cá. Assim, não darei nem 1 euro, porque acho que a experiência que tive no Visionarium não vale sequer isso.
    Ou seja, é uma percepção de valor.

    E a percepção de valor, também me diz que sendo de graça não posso esperar muito.
    Mas se fôr a 50 euros, então já quero algo com qualidade.

  43. Carlos Oliveira

    Estava a ler notícias de desporto no Record, e fez-me relacionar com este post.

    Ninguém duvida do “amor à camisola” do Pinto da Costa. Ou seja, ninguém duvida do seu amor ao FCP. No entanto, ele é pago, bem pago, pelo trabalho que executa. Porquê? Porque é justo que quem trabalha, receba pelo trabalho.

    Outro exemplo: a selecção.
    A Selecção sempre foi considerada o “parente pobre” do futebol. Não se dava valor aos seus jogos, os jogadores recebiam pelos clubes, e as pessoas nem iam ver os jogos da selecção.
    A partir de, mais ou menos, 1996, a Selecção começou a conquistar o orgulho do povo. E sobretudo com a vinda de Scolari em 2003, esse orgulho foi exacerbado. O país parava para ver a Selecção jogar. Gastava-se rios de dinheiro a ir para aqui e para acolá. E se desse para pagar para ir ver a selecção jogar, também se pagava. Mesmo que fosse a pagar para ir ver treinos!
    Ou seja, a mentalidade popular mudou em relação à selecção.

    O mesmo, parece-me, é preciso que aconteça na ciência, e no conhecimento científico.

  44. M. Abrantes

    As pessoas podem não ter paciência para uma palestra sobre a formação de estrelas, mas vão em massa ver filmes de ficção científica. Gostamos essencialmente de contemplar, de poder projectar estórias fantásticas nas quais não nos sintamos excluídos. Falar em ciência é absorvente para cientistas, mas pode facilmente fazer com que um leigo se sinta excluído.

    Quase toda a gente sabe que existiu um génio chamado Einstein, quase ninguém sabe por que foi ele um génio. Se o Einstein fosse vivo e desse uma palestra, milhões quereriam ouvi-lo, não perceberiam uma grande parte do que ele diria, mas projectariam um sonho fantástico. Porque Einstein já é um universo de fantasia mesmo que nada diga. O que passou para as pessoas foi a fantástica beleza que alguns disseram, e dizem, existir nas suas teorias, não foi a ciência do génio. Einstein olhado pela ciência que produziu seria factor de exclusão.

    As pessoas falam do Carl Sagan. O que fez o Carl Sagan? Programas com informação simples, ditas com uma voz serena mas apaixonada, como a de um bom pastor religioso, sobre um universo imenso que tem tanto de desconhecido que permite aos enredos dos episódios deixarem pontas soltas para qualquer leigo sonhar. As imagens de galáxias, e muitas outras imagens nos episódios, são meras representações, algumas absolutamente irreais, uma figuração de sonho de infinito. Onde há infinito há desconhecido, onde há desconhecido há espaço para completar com a nossa imaginação.

    Os americanos têm o seu imaginário repleto de estórias que envolvem a ciência, alimentadas, por exemplo, pela conquista espacial. A importância da ciência foi alimentada também pela competição com o bloco de leste durante a guerra fria.

    Que estórias, que lastro de imaginário e paixão, temos nós desenvolvido pela ciência, em Portugal?

    Não estou a dizer que as pessoas queiram ser embaladas, mesmo à custa de mentiras. Nada disso. Entendo até que a população tem muito mais curiosidade científica do que a que, normalmente, lhe é atribuída. Mas são precisas estórias que permitam que as pessoas sonhem e se excitem na expectativa de algo fantástico que emerja da ciência. São precisos métodos de comunicação apelativos, que sejam publicitados, massivamente, com impacto.

    Há aqui algo que não tem que ver com o preço das coisas. Se os filmes de ficção científica forem à borla as pessoas continuam a ir vê-los. Vai uma aposta?

    Uma mulher bonita a acenar não nos faz sonhar? Então não faz?! Tivesse eu 3000 euros.
    Bom Natal.

  45. sergio

    Olá novamente!

    Não sabendo se têm ou não interesse sobre o tema, mas recomendo a leitura de algum material com os conceitos principais da microeconómica (não recomendo nenhum especificamente, porque o meu conceito de bom, está longe de ser universal). Num contexto mais específico sobre alguns dos pontos abordados (nomeadamente a tabela inicial), recomendo um debruçar sobre os conceitos da economia do trabalho (labor-economics).

    Na minha opinião, o Carlos está a tirar conclusões erradas em alguns dos temas que aborda, e que aborda de uma forma (diria eu) pessoal e com sentimento de injustiça e desmotivação (que se for o caso, se compreende perfeitamente).

    Ainda assim, gostaria de chamar a atenção só para dois conceitos económicos que julgo que ajudam a compreender o problema: “bens públicos” http://en.wikipedia.org/wiki/Public_goods e “free riders” http://en.wikipedia.org/wiki/Free_rider_problem .

    Cumprimentos

  46. Nuno Coimbra

    O valor da ciência… A ciência em geral, mas principalmente as ciências físicas, são vistas como uma área de interesse de geeks e gajos de cabelo branco desgrenhado com ar alucinado…Em parte é verdade e eu sou um deles (bem, sem o ar alucinado e o cabelo branco e desgrenhado…). Logoa aí o seu valor monetário é diminuido ou desvalorizado, se prefere rirem. A ciência não é um asset ou uma commodity, ou pelo menos não é vista assim. Logo é difícil conseguir que as massas paguem pela ciência e basta ver o que acontece quando há financiamentos estatais para ciência como são disputados e discutidos.

    Isto não impede que as pessoas que a fazer, à ciência, sejam pagas. Eu sou consultor de desenvolvimento de software aplicacional, pagam-me para desempenhar as minhas tarefas e entregar soluções aplicacionais para resolver problemas e o que faço não é corpórea, não é sólido, tangível. São bits e bytes que correm em computadores, não deixam de ser algo “estranho” para muita gente. No entanto a informática está enraizada no dia-a-dia e as massas assumem-na como garantida também por isso mesmo tem “mercado”. A ciência tem mercado? A divulgação da mesma tem mercado?

    É possível que tenha, lá fora, tem. Porque não aqui? Porque não sites como o astroPt oferecem serviços e/ou conteúdos pagos de alguma forma e, no sentido inverso, por exemplo, pagar a quem os fornece ao astroPT? Há imensos exemplos na Internet de coisas “inúteis” que são pagas e com cashflows interessantes. Na minha opinião, questão do Carlos é pertinente.

    Penso que o que tem falhado na ciência para se “vender” e ser rentável é o marketing e o tipo de pessoas que estão na ciência o cientista, regra geral é mau comunicador, daí que surgiu a figura do comunicador de ciência e sim, é uma profissão em muitos países, no nosso como há tão poucos duvido que seja considerada como tal, apesar de o ser. (quero dizer que as tabelas mencionadas do IFP são um guia interessante, mas não completas)

    O que eu acho é que isto não é assim tão complicado e, para colocar a questão do Carlos de outra forma, completando-a, o que eu pessoalmente gostaria de saber é se vocês pagariam para ter acesso a conteúdos ou serviços seleccionados, com excelente qualidade de ciência, num site tipo o astroPT. Aliás, algo mais abrangente em que existissem conteúdos gratuitos mas em paralelo conteúdos, à falta de melhor expressão/palavra, “melhores” que fossem disponibilizados apenas a subscritores, mediante pagamento de, por exemplo, um valor anual, tal como é possível fazer em diversos locais semelhantes na Internet.

  47. Dário S. Cardina Codinha

    De facto, em sites pseudo compram-se pedrinhas da sorte ou até rezas que dão saúde, sorte e afastam o mau olhado. Porque não fazer o mesmo em conteúdos sérios? A manutenção da página terá, certamente, custos associados. Quem pretende que o astroPT se mantenha poderá contribuír. Poderá, sim haver conteúdos gratuítos mas outros poderão ser pagos.

  48. Jorge Almeida

    Ora bem, isto não é a Wikipedia, mas o que é certo é que ela para se manter precisa de dinheiro, e consegue-o. Obviamente que o público alvo é muito mais vasto. O que quero dizer é que quando algo é de qualidade, as pessoas preocupam-se em mantê-la, e, creio que estarão dispostas a contribuir com algum custo para poder continuar a usufruir. Não há-de ser difícil almejar se mesmo sites pseudo o conseguem porque não sites que têm, de longe, um contributo mais sério? A Ciência é a coisa mais preciosa que o Homem tem, infelizmente, muitos não se apercebem disso… nem que o seu dia-a-dia está completamente embebido de tudo o que a Ciência alcançou para permitir o actual comodismo e bem-estar, e aumentar a longevidade.
    Como em tudo o que é de qualidade, se não houver incentivo, as pessoas acabam por sair…
    Adeus e bom ano novo.

  49. Pedro Seixas

    Estou em geral de acordo com muito do que aqui foi dito.

    Queria apenas lançar alguns achas para a fogueira:

    - A Ciência é muitas vezes considerada uma coisa chata, fria, incompreensível (um pouco como a Matemática). Tal como disse outro comentador as pessoas vivem muito de emoções, fantasias e sonhos. Por isso é fácil os astrólogos e outros que tais fazerem passar as suas mensagens.

    - Nos EUA há muito a mentalidade de se vender o que quer que seja. Daí que a Ciência também “venda” mais facilmente as suas ideias do que por exemplo em Portugal.

    - No exemplo da Finlândia que foi dado, com certeza que a principal diferença reside nas mentalidades e na Cultura dos dois povos.

    - Quando os telejornais em Portugal são capazes de abrir com uma reportagem de 10 ou 15 minutos sobre a lesão do jogador de futebol X ou Y, está tudo dito… O mesmo não se passa com muitas notícias importantes que eu vejo sair diariamente no domínio da Ciência.
    Não tenho nada contra o futebol, para mim é um desporto como outro qualquer, mas deve haver cem vezes mais tempo de antena dedicado a este desporto em Portugal do que tempo de antena dedicado a todas as Ciências que existem… idem para programas tipo Big Brother, novelas, tardes da Júlia, depois da vida, etc… É esta a mentalidade… Ou seja promove-se a tacanhez, a ignorância e a burrice e não o conhecimento, a crítica e a inteligência. Isto é muitas vezes promovido por quem tem poder e quem tem possibilidade de fazer diferente e não o faz. A cultura do povo apenas reflecte esta mentalidade tacanha e limitada.

    - Penso no entanto que a evolução tem sido algo positiva para uma maior divulgação do conhecimento científico. Acredito que com a evolução tecnológica e científica, a Ciência terá um papel cada vez mais relevante no futuro e portanto a importância dada a estes temas será cada vez maior.

  50. Ana Guerreiro Pereira

    Parece-me a mim existir não só uma falta de interesse geral pelo conhecimento científico (“não me interesso por essas coisas”; “nem todos gostam desses temas”, e etc), como existe falta de interesse da parte de quem possui conhecimento em combater essa lacuna. Consideram que é a ordem natural das coisas haver quem seja mediocre (a propósito deste tema da mediocridade: http://www.superinteressante.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=534%3Ao-ataque-dos-mediocres&catid=24%3Aartigos&Itemid=104) e não chamam a si a tarefa de combater a iliteracia científica.

    Por outro lado, sabemos muito bem como a maioria dos cientistas carece de skills comunicacionais e não consegue comunicar eficazmente com os públicos leigos… mais de metade do que é dito a um público leigo por um especialista, não é entendido. Recordo-me por exemplo de uma semana aberta em q levei uma turma minha a uma Universidade, ver como se faz ciência (e onde fui tida como uma das alunas, ahahahaha) em diversas áreas, e não só ter tido de “traduzir” do cientifiquês para o português como tb ter tido de explicar ao cientista de serviço que estava a utilizar termos incompreensíveis para uma turma de secundário leiga em ciência…

    Outros exemplos são os péssimos professores universitários, sem qq capacidade pedagógica, que só por si transmitem a ideia de que ensinar e comunicar ciência é fastidisioso e difícil e que só alguns poderão ter acesso.

    Há um problema de elitismo no meio científico, no qual se considera que só alguns serão dignos de ter acesso a esse conhecimento e resistem a partilhá-lo e comunicá-lo, despachando até pessoas formadas na mesma área com um “logo te explico” ou “tu não vais perceber isto”…

    A verdade, infelizmente, é que os próprios cientistas não valorizam a comunicação e divulgação de ciência e chegam mesmo a desprezá-la e a desprezar quem o faz… já me disseram, inclusive, que não percebem pq é que me preocupo tanto com a iliteracia científica…

    Portanto, é um problema com várias vertentes, que parte de ambos os pólos do sistema de comunicação, neste caso do público leigo e da elite especializada. Aqui deveria entrar o comunicador de ciência, que faria a ponte entre os dois pólos. No entanto, em Portugal, não é uma profissão propriamente dita; as instituições carecem de comunicadores de ciência, há poucas iniciativas, e há muita ignorância da parte do público leigo que recorre a cientistas dispostos a comunicar, sem a mínima noção do que estão a pedir ou das qualificações do cientista/comunicador…

    por exemplo, certa vez contrataram-me para dar um módulo de quimica fisiológica (bioquímica…) a um curso de esteticismo e pediram-me que fizesse experiências nas aulas… !!!! ou seja, que roubasse material do laboratório onde estava ao mesmo tempo e fizesse experiencias numa sala teórica…??!! por outro lado, sabem qtas vezes tenho de explicar o que é um bioquímico e reafirmar q não sou física?… é que, metem na cabeça que não tenho uma vertente de bióloga, mas sim de física e vá de me excluirem das biologias – quando o meu cv na ciência e tecnologia fala por si…

    Com este “desabafo” pretendo somente ilustrar que há uma ignorância completa em muitas vertentes, que incluem o próprio mundo educacional, que não tem a noção correcta do que é um cientista e do q é o mundo da ciência. Isto, em pleno séc XXI!…

    Parece-me mais complexo ainda do que a tua análise, Carlos, e não considero que o astropt contribua para a desvalorização da ciência, muito pelo contrário!!

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