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Jan 28

A propósito de animais estranhos…

A propósito deste post e das espécies novas que se vão descobrindo em terras mais ou menos distantes e inacessíveis para a maioria de nós, deixem que vos apresente uma estranha criaturinha que existe bem ao virar da esquina: o urso-de-água!

Ursos-de-água (Tardígrados)

Não são ursos, mas é certo que vivem na água (ou em locais muito húmidos).

Como podem ver na fotografia, estes estranhos e crípticos seres que, quando observados numa lupa ou microscópio, têm, como o urso, um corpo arredondado e roliço. Mas, o verdadeiro motivo para o nome é a sua forma de locomoção, que se assemelha à do urso, com as devidas diferenças de escala.

Cientificamente são chamados de tardígrados, nome que deriva das palavras em latim tardus (lento) e gradus (passo). Estes minúsculos seres, com cerca de 1 mm, têm o corpo em forma de barril, quatro pares de patas, “pés” com 4 a 8 garras e alimentam-se maioritariamente de matéria vegetal. Têm diferentes estratégias reprodutivas e os seus ovos podem ter belas ornamentações.

Não são insetos (como as moscas, abelhas ou escaravelhos), nem crustáceos (como os camarões, caranguejos e lagostas), nem aracnídeos (como as aranhas e escorpiões)! São mesmo um filo completamente independente de invertebrados!

Existem mais de 1000 espécies ursos-de-água e são considerados dos animais mais resistentes da Terra, tendo sido encontrados desde os Himalaias até às profundezas do mar. Quando em condições adversas, podem entrar num estado de desidratação e dormência extremos e, deste modo, resistir a temperaturas extremamente baixas ou altas (de -200ºC a 150ºC), 1000 vezes mais radiação que outro animal e sobreviver quase uma década sem água!

Os leitores mais astronómicos deste blog possivelmente já ouviram alguma referência a estes seres, já que eles podem até resistir ao vácuo do espaço e, em Maio de 2011, foram passageiros na última viajem do vai-vem espacial Endeavour, como parte do projeto BIOKIS patrocinando pela Agência Espacial Italiana.

Quem sabe que surpresas ainda nos hão-de revelar estas criaturinhas?

———————-

(Atualização)

Faltou acrescentar que temos em Portugal uma equipa de investigação que trabalha precisamente com estes bichinhos e que já descreveu várias novas espécies para a ciência, incluindo uma encontrada no Parque Biológico de Gaia. Está liderada pelo Professor Paulo Fontoura da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, membro da Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa.

Acerca do autor(a)

Diana Barbosa

Bióloga e comunicadora de ciência. Entusiasta da divulgação da cultura científica, fascinada pelo estudo da evolução, pela origem de crenças e mitos e pelos movimentos anti-científicos e pseudo-científicos. Nega sempre, à partida, uma “ciência” que não conhece!

23 comentários

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  1. Cavalcanti

    Essa última imagem mais parece ter saído de um filme de terror – no melhor estilo “Guerra dos Mundos”.

    Cruzes.

    1. Diana Barbosa

      É espetacular não é? :)
      “Emprestei-a” da notícia da BBC e é de uma empresa (alemã?) especializada em imagens científicas. Têm fotografias de seres minúsculos como estes que são fantásticas!

      1. Cavalcanti

        Sim, é espetacular!

        A natureza é fantástica – e mais fantástico ainda é a capacidade evolutiva de alguns seres vivos.

      2. Pedro Seixas

        E qual é o site dessa empresa Diana? :)

  2. Manel Rosa Martins

    Diana, que post e que animal fantásticos. (sou um grande fã dos ursos-de-água :) )

    Eles na fotografia de cima estavam hibernardos, segundo creio.

    E na debaixo é em ambiente submerso, com os seus olhos (pouco sofisticados, mas muito poupados) que julgo serem sensíveis à luz em modo de vigília, activos.

    É muito engraçado o Urso-de-água.

    Há pessoas a quem mostrei fotos que me disseram que lhes faz uma certa impressão, que não é repulsa, mas antes um misto de incredulidade com algum temor.

    Mas também há pessoas que gostam de todos os animais…como eu :) )

    1. Diana Barbosa

      Obrigada pelo apoio Manel! :)

      Sim, creio que na foto inferior ele está junto a matéria vegetal, parece estar ativo. É incrível o detalhe com que se podem ver todas as estruturas.
      São criaturas crípticas, no verdadeiro sentido da palavra.
      E confesso que não me lembro de as estudar nas aulas de Zoologia!

  3. abidos

    2ª foto: é claramente uma criatura do universo Star Wars !!!!!!!!!

    Abraços

    1. Carlos Oliveira

      Precisamente.

      Imaginem que um ser destes tinha o tamanho de um urso “normal”.

      Seria mais “extraterrestre” do que os que aparecem na ficção científica ;)

  4. Diana Barbosa

    um cliché, mas….a realidade supera a ficção! :)

  5. Walker Pt

    Sobre a segunda imagem, quando a olhei pensei, bela composição artística….depois li os comentários e fiquei incrédulo.

    A pele parece um bocado de borracha esticada, a boca parece um componente plástico especialmente a parte branca, sem duvida uma bela criatura e adaptada há vida lá por cima ou será baixo?. Desculpa-me discordar abidos, mas segundo as capacidades será talvez uma verdadeira do universo e talvez um sério inimigo do “Alien”.

    1. Diana Barbosa

      É mesmo uma fotografia!
      Embora as cores creio que foram manipuladas.
      Mas é incrível o detalhe, não é?

      1. Dinis Ribeiro

        Excelente post !! Muito giro. Parecem-se ligeiramente com “embriões”…

        O detalhe é fascinante!

        Penso que talvez seja uma imagem obtida com esta tecnologia:

        “Microscópio eletrónico de varrimento”

        http://pt.wikipedia.org/wiki/Microsc%C3%B3pio_eletr%C3%B4nico_de_varredura

        http://en.wikipedia.org/wiki/Environmental_scanning_electron_microscope

        A primeira imagem da série a seguir tem 1 mm:
        http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a8/LT-SEM_snow_crystal_magnification_series-3.jpg

      2. Diana Barbosa

        Obrigada, Dinis. :)

        É possível que sejam imagens de varrimento, embora estes animais não sejam assim tão pequenos…normalmente esses microscópios são usados para coisas mesmo “micro” ou para realçar detalhes.
        Mas não consegui detalhes acerca da imagem, portanto o que eu possa dizer é especulação :(

      3. Diana Barbosa

        Com a ajuda da pesquisa do Manel Rosa Martins por essa web fora, chegámos à conclusão que efectivamente a 1ª foto será de SEM, como se pode atestar neste link:

        http://bioweb.uwlax.edu/bio203/s2008/shifflet_bran/images/tardigrade2.gif

  6. Carlos Oliveira

    Vejam também este excelente post sobre Tardígrados:
    http://astropt.org/blog/2009/05/30/tardigrades/

    Extraterrestres… Terrestres:
    http://astropt.org/blog/2011/02/16/extraterrestres-terrestres/

    Extraterrestres… Abissais:
    http://astropt.org/blog/2011/02/17/extraterrestres-abismais/

    Categoria de Vida Estranha:
    http://astropt.org/blog/category/vida-estranha/

    abraços :)

  7. Pedro Seixas

    Mas que raio de mensagem é esta que aparece quando se tenta comentar:

    “Slow down, cowboy! Speed kills.”

    !?!!?!?

    1. Carlos Oliveira

      É quando escreves muito, demasiado depressa.
      Acho que é uma função automática quando fazes copy-paste.

      Não sei muito bem, mas estou em crer que pode ter a ver com isso :P

      1. Pedro Seixas

        Sim, parece que tens deixar um tempo passar entre dois comentários, especialmente se estás a pôr comentários muito grandes. É para evitar copy-pastes…

  8. Pedro Seixas

    Da wiki:

    Tardigrades have been known to withstand the following extremes while in this state:

    Temperature – tardigrades can survive being heated for a few minutes to 151 °C (424 K), or being chilled for days at -200 °C (73 K),or for a few minutes at -272 °C (~1 degree above absolute zero).

    Pressure – they can withstand the extremely low pressure of a vacuum and also very high pressures, more than 1,200 times atmospheric pressure. Tardigrades can survive the vacuum of open space and solar radiation combined for at least 10 days.Some species can also withstand pressure of 6,000 atmospheres, which is nearly six times the pressure of water in the deepest ocean trench, the Mariana trench.

    Dehydration – tardigrades have been shown to survive nearly 10 years in a dry state.When encountered by extremely low temperatures, their body composition goes from 85% water to only 3%. As water expands upon freezing, dehydration ensures the tardigrades do not get ripped apart by the freezing ice (as waterless tissues cannot freeze).

    Radiation – tardigrades can withstand median lethal doses of 5,000 Gy (of gamma-rays) and 6,200 Gy (of heavy ions) in hydrated animals (5 to 10 Gy could be fatal to a human).

    Environmental toxins – tardigrades can undergo chemobiosis—a cryptobiotic response to high levels of environmental toxins. However, these laboratory results have yet to be verified.

    Outer space – In September 2007, tardigrades were taken into low Earth orbit on the FOTON-M3 mission and for 10 days were exposed to the vacuum of space. After being rehydrated back on Earth, over 68% of the subjects protected from high-energy UV radiation survived and many of these produced viable embryos, and a handful had survived full exposure to solar radiation.

    Some 1,150 species of tardigrades have been described.Tardigrades occur over the entire world, from the high Himalayas(above 6,000 metres (20,000 ft)), to the deep sea (below 4,000 metres (13,000 ft)) and from the polar regions to the equator.

    :)

  9. João Pedro Calafate

    Interessantíssimas criaturas, que desconhecia, adorei.
    Parabéns Diana pelo interessante “post”!

    1. Diana Barbosa

      Obrigada, João! ;)

  10. Rui Costa

    Excelente post. Muito interessante.

    É precisamente por existirem seres vivos (terrestres, naturalmente) que resistem às condições extremas encontradas no espaço sideral ou, mais provavelmente, nos corpos celestes que exploramos remotamente, que todas as sondas enviadas para a Lua ou Marte são exaustivamente limpas e desinfectadas.

    Os cuidados e procedimentos em prática são muito rigorosos pois se enviamos sondas para procurar vestígios da existência de vida, presente ou passada, noutros corpos celestes, temos que evitar, a todo o custo, toda e qualquer contaminação biológica. Caso contrário, toda a missão fica comprometida, bem como futuras missões com o mesmo propósito.

    Este é um dos principais problemas que se coloca quando se pretende, por exemplo, planear uma missão tripulada a Marte. Numa missão não tripulada, “basta” assegurar a desinfeção total de toda a sonda. Mas numa missão tripuladaestamos a falar de enviar seres humanos que lá terão que viver durante longos períodos de tempo. E viver implica necessidades fisiológicas, metabolismo, residuos… um sem número de problemas no que toca a evitar a contaminação de um planeta.

    Mesmo se pensarmos que a intensa radiação UV existente na Lua ou em Marte poderá destruir um microorganismo, a matéria orgânica que o compõe permanece lá e é, ela mesma, uma fonte de contaminação que compromete a deteção de vestígios de vida autóctone. Já para não falar na possibilidade de um microorganismo, inadvertidamente transportado para Marte, sobreviver na parte inferior de qualquer artefacto ou rocha ou grão de areia e acabar por se reproduzir, com consequências totalmente desconhecidas.

    Mais info: http://astrobiology.gsfc.nasa.gov/analytical/PDF/Glavinetal2004.pdf

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