Durante minha infância, quase nunca escutei a questão “O que você quer ser quando crescer?”. Felizmente. Afinal, descobri qual seria minha profissão apenas aos 14 anos, após ficar encantado com uma edição do jornalzinho da escola em que cursava o oitavo ano do ensino fundamental. Decidi então que buscaria o jornalismo. Ainda hoje, com 27 anos, diplomado nessa área, continuo a me descobrir. E vejo que tenho afinidade e condições para atuar em muitos campos além da área de minha primeira formação acadêmica.
No entanto, quando criança, não posso negar que outros campos causavam-me grande atração. Um deles era a astronomia. Mesmo sem conhecer bem o cotidiano de trabalho de um astrônomo, adorava o tema. Aliás, não tinha para ninguém nas aulas de geografia! “De quantos graus é a inclinação da Terra?”, perguntava o professor. Levantava a mão e respondia. “Qual é a distância entre o Sol e Mercúrio?”. E lá estava eu novamente. Algumas das perguntas, confesso, atualmente só conseguiria redarguir com o auxílio de uma boa enciclopédia.
Enquanto mais estudava sobre o assunto, fosse por meio daquelas aulas ou ainda em leituras buscadas fora da escola – sem muito compromisso, mais despertava em mim uma percepção: a de que somos meras criaturinhas presas a uma pequena nave chamada Terra. Uma percepção extremamente simples, é verdade; porém, que acredito ser íntima e essencial a qualquer aficionado ou profissional de astronomia. Um dos pilares que sustentam nosso desejo de desbravar o Universo.
Tome as dimensões do Sol como exemplo. Em média 150 milhões de quilômetros de distância da Terra, o astro, ainda assim, nos parece gigantesco. Porque, de fato, é: seu diâmetro é 109 vezes maior que o de nosso Planeta. Além disso, nada menos que 99,86% da massa do Sistema Solar “pertence” ao Sol! Ou seja, a massa dessa estrela é 333 mil vezes superior a da Terra!
Mas se tais dados impressionam, vale lembrar que o Sol é classificado por astrônomos como uma estrela anã. Sim… Anã! Para compreender facilmente o motivo de tal qualificação basta, por exemplo, comparar o astro rei a Antares. Situada na constelação de Escorpião, 600 anos-luz da Terra, Antares é uma estrela supergigante. Fosse “colocado” no lugar do Sol, esse corpo celeste excederia às órbitas de Mercúrio, Vênus, Terra e Marte!
Pensar nas dimensões do Universo é algo que nos confere um exercício de humildade. Humildade que não é aquele conceito estúpido, de se esconder atrás de falsa modéstia; mas sim uma busca pelo autoconhecimento. Saber quais são nossas virtudes e defeitos. Promover nossas virtudes, curar nossos defeitos – se possível, tornando-os pontos positivos. Saber que hoje podemos ir além do que fomos ontem, que ninguém é igual a ninguém. Transmitir nossos conhecimentos e buscar aprender cada vez mais.
E, sobretudo, reconhecer que o maior trabalho já foi feito: o Universo.
Se tivesse a oportunidade de voltar à minha infância, mais precisamente às poucas ocasiões em que fui questionado sobre a pergunta do primeiro parágrafo, certamente responderia: “Gostaria de ser apenas um conhecedor das dimensões da força criadora desse Universo”. Nada mais.







12 comentários
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Alexandre Barbosa
01/06/2012 em 13:37 (UTC 1) Link para este comentário
São textos como esse que fazem valer a pena o nosso trabalho e a nossa vida dedicados à Educação.
Parabéns Rafael.
Estou orgulhoso.
Alexandre Barbosa – ex Professor e colega de profissão.
Rafael Ligeiro
02/06/2012 em 06:16 (UTC 1) Link para este comentário
Obrigadão, Alexandre! Grande mestre, grande amigo!
Abraços,
Rafael
isa marreiros
02/06/2012 em 14:03 (UTC 1) Link para este comentário
Devo dizer que descobri o fascinio pela astronomia com os programas do nosso genial Carl Sagan. Desde aí paixonei-me pelo Universo, a visão que tinha da vida mudou radicalmente, a imensidão do Universo deixou-me deslumbrada e com uma vontade imensa de saber mais e mais sobre este misterioso mundo em que vivemos. Aprendi a relativizar o nosso quotidiano a ter maior consciência do lugar que ocupamos neste espaço que para nós parece infinito, e o quanto somos microscópicos perante tamanha imensidão.
Sinto-me feliz por viver numa era onde o avanço no conhecimento do Universo nos surpreende dia a dia, a volucidade com que se anunciam novas descobertas é fascinante…
Digamos que o Universo me tornou um ser melhor…
Alexandre Damiano
02/06/2012 em 20:50 (UTC 1) Link para este comentário
Muito bom o texto e a mensagem.
temos muito para aprender…
Rafael Ligeiro
02/06/2012 em 23:04 (UTC 1) Link para este comentário
Isa,
Cosmos, de Carl Sagan, é um dos grandes documentários sobre astronomia. Você certamente não é a única que aprendeu a gostar de astronomia por conta desse programa. Sagan, além da genialidade em sua área de atuação, era um comunicador de primeira linha!
Sidney Cardoso
03/06/2012 em 04:23 (UTC 1) Link para este comentário
Rafael
Desde que li o livro Cosmos, de Carl Sagan, também me apaixonei pelo Universo.
Parabéns por ter aberto esse blog.
Abraços.
Manel Rosa Martins
04/06/2012 em 15:05 (UTC 1) Link para este comentário
Parabéns pelo belo texto de abertura, Rafael, está muito bem conseguido, faz saltar a criança curiosa que há dentro de nós.
)
Sê Bem-vindo ao AstroPt. Gostava que um dia faças um post sobre as Ciências subjacentes no automobilismo, um desporto sempre na vanguarda das tecnologias. Com pilotos fabulosos como o foi o grande Ayrton Senna – o melhor de sempre – também não falta muita emoção.
Um abraço e até ao próximo post.
Rafael Ligeiro
06/06/2012 em 07:31 (UTC 1) Link para este comentário
Obrigado por suas palavras, Manel! Já conferi alguns de seus textos e também aprecio suas publicações!
Aliás, sua ideia é excelente. Grande dica. Muito obrigado!
Abraços e bons céus!
Luiz Carlos
14/07/2012 em 12:58 (UTC 1) Link para este comentário
“Gostaria de ser apenas um conhecedor das dimensões da força criadora desse Universo”. Nada mais.”
Creio que nessa sua colocação, esta sintetizada a verdadeira lição de humildade!
Parabéns amigo!
Rafael Ligeiro
15/07/2012 em 08:09 (UTC 1) Link para este comentário
Obrigado, Luiz!
Abraços e bons céus!
Leo
13/09/2012 em 03:16 (UTC 1) Link para este comentário
Lindo Texto Rafael, o Universo é um exercício de humildade, todos deveriam ter acesso a estas informações. O mistério que nos mantém curiosos.
Rafael Ligeiro
06/10/2012 em 07:18 (UTC 1) Link para este comentário
Obrigado, Leo!