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Jun 23

Ano-luz e viagens interestelares

Recentemente, o site de um jornal de grande circulação em São Paulo publicou a notícia da descoberta de um exoplaneta: o GJ667Cc. Situado na constelação de Escorpião, o astro está a 22 anos-luz da Terra. Curioso é que, entre os comentários dos leitores, muitos alegavam que uma viagem até lá “levaria 22 anos”.

Será?

Em primeiro lugar, é preciso entender que ano-luz não se trata de uma referência ao tempo consumido em eventuais viagens espaciais. Segundo a União Astronômica Internacional (UAI), ano-luz é o período em que a luz atravessa no vácuo durante um Ano Juliano (365,25 dias). Logo, trata-se de uma medida de comprimento usada para simplificar gigantescas distâncias entre a Terra e corpos celestes.

Cada ano-luz corresponde a 9.460.730.472.580,8 quilômetros de distância. Entretanto, é muito comum vê-la ser “arrendodada” para 10 trilhões de quilômetros. Isso porque o termo ano-luz é mais difundido em publicações não segmentadas em ciências que na própria comunidade astronômica. Astrônomos geralmente usam outra medida, o parsec – mas isso é assunto aos próximos textos.

Diante dessas constatações, o que seria necessário para que uma viagem ao GJ667Cc durasse 22 anos? Estar em uma nave espacial capaz de igualar a velocidade da luz: aproximadamente 300 mil quilômetros por segundo.

Contudo, há um detalhe: mesmo que o homem já tivesse construído uma espaçonave apta a percorrer distâncias astronômicas – e seus tripulantes resistissem às brutas forças gravitacionais, não seria possível atingir velocidade próxima à da luz imediatamente. Segundo Stephen Hawking, uma nave transportando humanos poderia acelerar até 98% da velocidade da luz em um período de seis anos. Consequentemente, o tempo da viagem ao GJ667Cc seria maior que esses 22 anos.

Para se ter uma noção, Alpha Centauri A (uma das três estrelas do sistema Alpha Centauri, também conhecido como Rigil Kentaurus), segunda estrela fora do Sistema Solar mais próxima à Terra, está a aproximadamente 4,3 anos-luz da Terra. Sob 99,99% da velocidade da luz, haveria um acréscimo aproximado de 3h30 à ida até Centauri. Veja bem: a 99,99% da velocidade da luz durante toda a viagem!

Em dezembro de 2010, a NASA anunciou que a sonda Voyager 1, então 17,3 bilhões de quilômetros distante do Sol, viajava a 17 quilômetros por segundo – apenas 0,0057% da velocidade da luz. Sob tal velocidade, a nave levaria cerca de 80 mil anos para chegar à Centauri A. Desse modo, uma viagem até GJ667Cc duraria mais de 400 mil anos!

Números como esses dão uma noção de quão distante estamos de realizar viagens interestelares.

 

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Acerca do autor(a)

Rafael Ligeiro

Rafael Ligeiro é jornalista e publicitário. Atua desde 2002 como colunista de automobilismo. Já produziu mais de 270 artigos para 60 veículos de Brasil, Portugal, Espanha, Argentina, Venezuela e México. Trabalha ainda com gestão de projetos publicitários. Possui interesse em astronomia desde a infância. Curte documentários como O Universo (History Channel) e Cosmos, de Carl Sagan. É adepto de uma das frases mais populares de Albert Einstein: "Sucesso só vem antes de trabalho no dicionário".

7 comentários

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  1. Cavalcanti

    Artigo perfeito! Altamente didático, Rafael. ;)

    Viagens interstelares nos dá alguma “noção” da dimensão que é este universo – como também o quanto ainda precisamos avançar na questão das viagens espaciais (Engenheiros Aerospaciais ainda têm muito trabalho pela frente).

    Outra coisa que seu excelente artigo faz pensar: é necessário uma civilização dotada de uma tecnologia “impensável” para nós – não somente no deslocamento de suas supostas naves, como também na questão de uma “logística” para se deslocarem. Portanto, muito mais difícil que supostos extraterrestres enviarem suas sondas pra ficar nos bisbilhotando, por exemplo, seria uma invasão à Terra de toda uma civilização.

    Parabéns e abraços! ;)

    1. Cavalcanti

      correção: *Engenheiros Aeroespaciais.

      1. Rafael Ligeiro

        Pois é…

        Essa condição de “atraso” fica bastante clara quando levamos em conta que ainda há tanto para explorar em nosso Sistema Solar… Ou ainda se pensarmos que, ainda que a Voyager 1 fosse aproximadamente 177 vezes mais veloz, atingiria “apenas” 1% da velocidade da luz.

        Nada contra a comunidade científica. Aliás, muito pelo contrário. Esforço e resultados destes são pontos notáveis, sobretudo se levarmos em conta que a exploração espacial intensificou-se apenas a partir da segunda metade do século passado!

        Acontece que chega até a ser ilusório afirmar que tais viagens tratam-se de desafios gigantes… Extrapola tal ponto! Torná-lo o mais próximo da viabilidade nos próximos 100 anos, por exemplo, seria um dos saltos mais impressionantes dados pelo homem em toda a história.

        Em tempo: Cavalcanti, obrigado mais uma vez!

        Picasso dizia que “Um quadro só vive para quem o olha”. Com textos, penso que não seja diferente. O que o leitor é capaz de extrair é essencialmente importante, o que “vivifica” as palavras.

        Abraços e, mais uma vez, obrigado pelos elogios!

  2. Ricardo Correia

    Excelente artigo.

    Mesmo viajando à velocidade da luz, precisamos de 4,3 anos para chegar a Alpha Centauri. MAIS 4,3 anos para regressar, isso dá praticamente 9 anos só de viagem. Ou seja , para alem dos Engenheiros Aeroespaciais, tambem os biólogos têm que fazer muitos estudos sobre criogenia(?).
    É… vai levar uns anos…

    Mais uma vez, parabens pelo artigo,

    Abraço

    1. Carlos Oliveira

      Se viajasse quase à velocidade da luz, a viagem demoraria 5 meses, devido à dilatação do tempo ;)
      http://astropt.org/blog/2009/01/31/teoria-da-relatividade-dilatacao-do-tempo/

      abraços!

      1. Rafael Ligeiro

        Em resumo, o tempo passaria mais vagarosamente à heroica tripulação que a nós, aqui na Terra.

        De qualquer modo, ainda que houvesse tecnologia para tais viagens, o tempo continuaria a ser um ponto complicado.

        Ida e volta à Centauri duraria dez meses – sem contar a “estadia” por lá, afinal seria um baita desperdício ir até lá para voltar imediatamente, sem comprar um lembrança, visitar um shopping center… rs Mas na Terra, praticamente dez anos teriam se passado.

        Logo, será que o interesse pela exploração espacial continuará igual ao de hoje daqui dez anos?

        Não falo isso por conta da comunidade científica, mas sim por conta dos governantes, que poderiam cortar investimentos referentes à área.

        Essa questão se agrava quanto mais longa for a viagem.

    2. Rafael Ligeiro

      Ricardo,

      Uns anos?! Você acabou de colocar uma pressão imensa sobre a comunidade científica… O grande Carlos Oliveira e seus colegas precisarão de clones para dar conta da “demanda”! rsrsrs

      Brincadeira! Entendi sua colocação! ;)

      O que escrevi ao Cavalcanti emprega-se ao seu comentário. Inclusive o modesto agradecimento de minha parte. Muito obrigado!

      Abraços!

  1. Maior galáxia espiral e 389 trilhões de Terras » AstroPT - Informação e Educação Científica

    [...] Internacional (UAI), cada ano-luz equivale a aproximadamente 9,5 trilhões de quilômetros. Sobre este assunto, aliás, já ressaltei aqui. Logo, NGC 6872 possui um generosíssimo diâmetro de quatro quintilhões e 959 quadrilhões [...]

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