«

»

Ago 31

Resultado doce do ALMA – blocos constituintes da vida descobertos em torno de uma estrela jovem

Uma equipa de astrónomos utilizando o Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA) descobriu moléculas de açúcar no gás que rodeia uma estrela jovem do tipo solar.
Esta é a primeira vez que açúcar é descoberto no espaço em torno de uma tal estrela.
Esta descoberta mostra que os blocos constituintes da vida se encontram no local certo, na altura certa, de modo a serem incluídos em planetas que se estejam a formar em torno da estrela.

Os astrónomos descobriram moléculas de glicoaldeído – uma forma simples de açúcar [1] – no gás que circunda uma estrela binária jovem, com massa semelhante ao Sol, chamada IRAS 16293-2422. O glicoaldeído já tinha sido observado anteriormente no espaço interestelar [2], mas esta é a primeira vez que é descoberto tão perto de uma estrela do tipo solar, a distâncias comparáveis à distância de Urano ao Sol, no Sistema Solar. Esta descoberta mostra que alguns dos componentes químicos necessários à vida existiam neste sistema na altura da formação planetária.

“No disco de gás e poeira que circunda esta estrela recém-formada encontrámos glicoaldeído, uma forma de açúcar simples não muito diferente do açúcar que pomos no café,” explica Jes Jørgensen (Instituto Niels Bohr, Dinamarca), o autor principal do artigo científico que descreve estes resultados. “Esta molécula é um dos ingredientes na formação do RNA, que – tal como o DNA, ao qual está ligado – é um dos blocos constituintes da vida.”

(…)

“O que é verdadeiramente excitante acerca dos nossos resultados é que as observações ALMA revelaram que as moléculas de açúcar estão a cair em direção a uma das estrelas do sistema,” diz a membro da equipa Cécile Favre (Universidade de Aarhus, Dinamarca). “As moléculas de açúcar não só se encontram no local certo para encontrarem o seu caminho até um planeta, estão também a deslocar-se na direção correcta.”

(…)

A IRAS 16293-2422 situa-se a cerca de 400 anos-luz de distância, relativamente próximo da Terra, o que a torna num excelente alvo para os astrónomos que estudam as moléculas e a química em torno de estrelas jovens. Juntando o poder de uma nova geração de telescópios, tais como o ALMA, os astrónomos têm agora a oportunidade de estudar os detalhes das nuvens de gás e poeira que estão a formar sistemas planetários.

“A grande questão é: qual a complexidade que estas moléculas podem atingir antes de serem incorporadas em novos planetas? Esta questão pode dizer-nos algo sobre como a vida aparece noutros locais e as observações do ALMA serão vitais para desvendar este mistério,” conclui Jes Jørgensen.

Notas:

[1] Açúcar é o nome comum para uma série de pequenos hidratos de carbono (moléculas que contêm carbono, hidrogénio e oxigénio, tipicamente com uma razão atómica hidrogénio:oxigénio de 2:1, como a água). O glicoaldeído tem a fórmula química C2H4O2. O açúcar utilizado normalmente na comida e bebida é a sacarose, uma molécula maior que o glicoaldeído e outro exemplo deste tipo de compostos.

[2] O glicoaldeído foi detectado até agora em dois locais no espaço: na direção da nuvem do centro galáctico Sgr B2 (…) em 2000 e em 2004, e no núcleo molecular quente de elevada massa G31.41+0.31 (…) em 2008.

Leiam o artigo completo, na página do ESO.

Acerca do autor(a)

Carlos Oliveira

Carlos F. Oliveira é astrónomo e educador científico. Licenciatura em Gestão de Empresas. Licenciatura em Astronomia, Ficção Científica e Comunicação Científica. Doutoramento em Educação Científica com especialização em Astrobiologia, na Universidade do Texas. Criou e leccionou durante vários anos um inovador curso de Astrobiologia na Universidade do Texas. É actualmente Research Affiliate-Fellow em Astrobiology Education na Universidade do Texas em Austin, EUA. Trabalhou no Maryland Science Center, EUA, e no Astronomy Outreach Project, UK, recebeu dois prémios da ESA, e realizou várias palestras e entrevistas nos media.

2 comentários

  1. Fernando Simões

    Impressionate !!! Como é que conseguem detectar moleculas a 400 anos luz de distância?

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Pode usar estas HTML tags e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>