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Jan 22

Astronomia versus Astrologia

Este tema já por cá passou muitas vezes, mas nunca é demais repetir…

Vou ser talvez um pouco hostil para certas pessoas: aquelas que apreciam o trabalho da Maya, ou do professor “Bambu”… A todas peço desde já desculpa.

A astrologia parece ter adoptado um pouco de Geometria, de modo a que as invenções pareçam ter uma credibilidade maior.

Antes de mais, convém começar por esclarecer a diferença entre estas duas “ciências”, que não é clara para todos. A Astronomia é a ciência que estuda os astros, enquanto que a astrologia é a “ciência” que procura encontrar uma relação entre os astros e a vida dos humanos no planeta Terra. Note-se que a uma chamei ciência e à outra “ciência”, esta diferenciação foi feita simplesmente com o intuito de sublinhar que a primeira usa o método científico (como as outras ciências exactas: Física, Química, Biologia, etc.), enquanto que a segunda não passa de mera especulação, e atrevo-me até a dizer: invenção. Não existe nenhuma boa razão para considerar que o movimento dos astros possa de algum modo nos afectar, exceptuando o Sol, que transforma o dia em noite, e a noite em dia, bem como a Lua, que afecta as marés do mar, bem como o comportamento de muitos animais e plantas, a um nível biológico (não a um nível psicológico e/ou relacionado com o futuro desses animais).

A confusão que existe quanto às duas “ciências” tem, do meu ponto de vista, uma razão de ser. Como sabem, só a partir do século XX é que existiu um claro apoio financeiro aos cientistas, para que estes realmente “fizessem” ciência, pois verificou-se que a mesma tinha, muitas vezes, consequências de interesse económico, que faziam justificar o investimento. À medida que se caminha para o passado, a ideia de associar ciência a interesse económico é cada vez mais ténue, pelo que os cientistas são obrigados a tornar a sua ciência apelativa e de algum modo interessante a quem os possa patrocinar. Assim, não é de estranhar que os astrónomos, que estudando os astros verificaram que os mesmos tinham comportamentos previsíveis, pudessem tentar extrapolar esta previsibilidade para algo mais palpável para o comum mortal, isto é, a previsão do futuro desse mesmo mortal. Assim a astrologia terá sido uma “ciência” necessária à Astronomia, como meio financiador. Obviamente que esta é apenas a minha visão de como tudo pode ter começado, ainda que possivelmente de modo inconsciente. O que é certo é que há 6000 anos atrás já existiam astrólogos, muito apetecíveis por chefes de estado, que queriam ter do seu lado a mão divina que lhes permitisse dominar o inimigo. Entre tantos astrólogos, uns tiveram sorte, outros tiveram azar, como é natural (até se pode supor que nem sempre tenha sido sorte, podendo por vezes ter feito previsões com base naquilo que poderiam saber por via de “informadores políticos”…).

Deixem-me apontar duas falhas astronómicas à astrologia actual:

  • Os signos estão incorrectos. Uma pessoa é do signo X, porque ao nascer, o Sol estava na “direcção” da constelação com o mesmo nome X – isto era verdade há milhares de anos atrás, quando a astrologia foi inventada, agora as constelações já “mudaram um pouco de sítio” (devido a um fenómeno chamado “precessão dos equinócios”) no céu, pelo que há um deslocamento de quase uma constelação “para trás”. Isto é, um Leão, por exemplo, é na verdade um Caranguejo (podem confirmar vendo num mapa celeste do ano em que nasceram).
  • Pior ainda acontece para quem nasceu na primeira quinzena de Dezembro, sensivelmente, pois encontra-se aí uma outra constelação – Ofiúco, ou seja, deveria haver um décimo terceiro signo.

Como é possível que uma suposta ciência que obtém os seus resultados através da posição dos astros, ignore por completo que estes já não estão no mesmo sítio que estavam há milhares de anos atrás?

Os nomes estão em brasileiro, mas dá para perceber que está ali uma constelação entre escorpião e sagitário – ofiúco. Já agora, para os que gostam de associar o próprio nome do signo a um significado (por exemplo, o leão é o “rei da selva”, pelo que deve corresponder a um bom líder), recordo que os nomes não têm nenhum significado, como podem ver na imagem. O desenho do touro, por exemplo, foi imaginado de modo a passar pelas estrelas que agora o constituem, porém, se olharem apenas para as estrelas, não vêem lá nenhum touro.

Estudos científicos já foram feitos para averiguar até que ponto existe algum poder real de previsão na astrologia e todos eles demonstraram que não existe qualquer “poder”: é aleatório.

Para todos aqueles que acreditam que já presenciaram a astrologia a funcionar, relembro-vos que o ser humano tem uma aptidão especial para reconhecer padrões e para simultaneamente negligenciar informação que possa colocar em causa esses mesmos padrões. Em conversas coloquiais não são poucas vezes em que alguém se lembra de fazer uma generalização absurda, a qual depois a justifica com alguns exemplos. Existem, porém, normalmente, contraexemplos a considerar, os quais invalidam a generalização. O mesmo se passa com a astrologia: aqueles que querem acreditar nela dão simplesmente valor às vezes em que o horóscopo coincide com a realidade e desprezam as vezes em que não existe qualquer relação (por outro lado, as previsões costumam ser bastante genéricas, podendo “coincidir” com o que aconteceu, bastando para tal a boa vontade da interpretação de quem acredita). Alguns até se iludem com a falácia de que o horóscopo não está sempre certo, mas que outras vezes está: pudera, o que o horóscopo afirma é sempre algo que se não vos acontecer a vós, quase de certeza que acontecerá com outra pessoa. Para fazer esse tipo de previsões não é preciso ser astrólogo, é simplesmente necessário conhecer a sociedade humana, pelo que todos nós podemos ser aldrabões, perdão, astrólogos.

Acerca do autor(a)

Marinho Lopes

Licenciado em Engenharia Física (2008) e mestre em Física (2010) pela Universidade de Aveiro. Actualmente sou doutorando em Física (MAP-fis).
No projecto de licenciatura estudei o efeito de maré em hot jupiters (planetas extra-solares de tamanho comparável ao de Júpiter, mas que são “hot”, ou seja, encontram-se perto das estrelas que orbitam).
Na tese de mestrado e agora no doutoramento tenho-me dedicado ao estudo da dinâmica de redes neuronais, o que envolve toda a física relacionada com redes complexas, transições de fase e fenómenos críticos, processos estocásticos, sistemas não-lineares, bifurcações, ressonância estocástica, entre outros. O meu trabalho é uma sobreposição de Física e Matemática com aplicação nas Neurociências.
Os meus interesses principais em Física são alimentados por duas questões centrais: como é que o universo funciona? E, em particular, como funciona o cérebro humano?

7 comentários

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  1. Vitor Madeira

    Caro Marinho Lopes, o seu texto deveria ser publicado nas revistas cor de rosa (e no jornal Dica da Semana do Lidl) tal como os avisos presentes nos maços de tabaco.

    Só acho que peca por um pequeno aspecto, é que, o texto é tão bom que falta colocar um parágrafo no meio que explique que uma constelação não passa de um ‘desenho imaginário criado pelos homens para justificar os conjuntos de estrelas que “aparentemente” parecem estar juntas umas das outras’…

    E reforçar a negrito a ideia de “desenho imaginário” (ou “figura imaginária”) indicando depois que, as estrelas agrupadas numa qualquer constelação podem estar a milhões de anos luz umas das outras.

    Bem haja.

    1. Marinho Lopes

      Obrigado pela sugestão, Vitor Madeira. Acho que não o tinha referido porque o desenho em si não tem que ser conectado necessariamente com a astrologia (basta lembrar que no efeito borboleta, a borboleta veio apenas de uma simples figura geométrica no sistema de Lorenz, depois é que se inventou o “ditado” sobre o tufão…). Mas uma vez que é efectivamente associado, realmente é também bom relembrar esse “detalhe”, para os mais desatentos. Irei adicionar a informação ao artigo.

      Cumprimentos.

    2. Carlos Oliveira

      Existe ainda um outro factor que se pode adicionar a esses desenhos de signos. :)
      É que o Sol demorar em cada um deles 30/31 dias é somente uma convenção.

      Na verdade, o Sol está na direcção da constelação da Virgem cerca de 45 dias enquanto está em Escorpião somente 6 dias.

      Mais uma vez, a astrologia não quer saber da verdade astronómica que nos é ditada pela natureza ;)

  2. termal12

    Fiquei com a impressão que a Astrologia se baseia num Sistema Geocêntrico.
    Que a Terra é considerada o Centro e que o Sol orbita a Terra.
    Assim sendo, só esse pequeno detalhe, mero detalhe é verdade, é capaz de levantar um ou outro problema…

    1. Carlos Oliveira

      Sim, é verdade.

      abraços!

      1. Marinho Lopes

        A astrologia usa informação primitiva da Astronomia…

        De qualquer forma, eu não gosto muito de insistir nisso, porque mesmo que a astrologia se preocupasse em actualizar a sua informação astronómica, isso não a iria tornar mais credível. É na sua génese uma invenção e nunca poderá passar disso.

  3. francisco domingues

    Marinho Lopes, o seu artigo foi muito esclarecedor. Realmente confrange a alma de um intelectual/analista/crítico constatar que os media continuam a publicar horóscopos, os astrólogos continuam a ter programas de televisão e a terem consultórios onde se fazem pagar milionariamente pelas mentiras que vendem aos que – vá-se lá saber porquê! – se querem deixar levar… Farei eco do seu artigo no meu blog “Em nome da Ciência”, blog onde tento provar toda a falsidade das religiões em geral, e da cristã em particular, desmistificando tudo o que se convencionou chamar de sagrado. Se tiver tempo, faça uma visita e deixe um comentário.
    Cordiais saudações!

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    […] Marciana. Homem do futuro. Satélite Black Knight. Farsas (Hideaway). Astrologia. Signos. Ofiúco. Padrões. Televisão. Problema das Crenças Pseudo. Portas do Céu. Weekly World News: Múmia […]

  2. Criar Ciência

    […] a pseudociência e a astrologia, que aliás já as discuti nos artigos The New Secret e Astronomia versus Astrologia, respectivamente, pois nem merecem menção junto da Ciência – são meramente fantasias […]

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