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Set 12

Contágio

Já falei deste filme, aqui.
Ontem fui ver o filme.

Contagion – em português deve ser distribuído como Contágio – é um filme sobre um vírus que se espalha pelo planeta e mata muita gente.
Pensei que fosse ser um filme a disseminar paranóias de fim do mundo. Mas não é. Na verdade, é um filme bastante sóbrio e realista, que recomendo a toda a gente.
Não é um típico “filme de Hollywood”, com muita acção e coisas a acontecer, mas é sobretudo um filme que deixa várias situações em aberto, que não mostra várias coisas, e que sobretudo nos faz pensar.

Uma das grandes mensagens do filme é que estamos todos ligados.
Não só o facto de os humanos estarem ligados, e o contágio acontecer por toque ou ao respirar, em poucos dias em várias cidades do mundo – devido a milhares de pessoas viajarem todos os dias.
Mas sobretudo estamos todos ligados, em termos de vida na Terra, por isso algo pode passar de bananas, para morcegos, para porcos, e depois para nós.
Como é dito no filme, não é preciso haver terroristas, porque os próprios animais podem inadvertidamente criar e passar algo que nos pode matar a todos.

O filme obviamente reflecte diversas paranóias.
Por exemplo, as pessoas deixaram de querer relacionar-se com outras. O contacto passou a ser “proibido”.
As pessoas também não querem tocar em nada, porque pode ter sido tocado por alguém infectado.
Por outro lado, devido ao pânico, o crime aumentou, e muitas pessoas passaram a comportar-se como animais.

Uma das personagens principais do filme é um jornalista freelancer que tem um blog onde expõe as ideias dele em vídeos do YouTube.

Os conspiradores vão ver nesta personagem o “herói”.
Ele retrata a mentalidade pseudo, conspiradora, que é contra o poder, que ataca poderes obscuros (como as farmacêuticas) com argumentos monetários, e que desconfia dos especialistas.
O que faz dele um herói para os conspiradores é que ele desmascarou um dos cientistas: o cientista tinha avisado a pessoa amada da epidemia dias antes do anúncio oficial ter sido dado a toda a população.

A verdade é que as mentes racionais interpretam este jornalista e os cientistas de forma diferente.
Os cientistas fazem de tudo, incluindo pondo a sua própria vida em risco (uma cientista até morre com a doença), para tentarem arranjar uma cura para salvar milhões de pessoas. Quanto ao cientista que supostamente foi “desmascarado”, é certo que ele não devia ter dito nada, mas a razão era só para não fomentar o pânico em toda a população – afinal, para pôr toda a logística em ordem demorava alguns dias.
Já o jornalista freelancer só diz disparates sem qualquer evidência, fomenta o pânico na população, e sobretudo só divulga mentiras. Ele diz que teve a doença e que a conseguiu curar com um produto normal. Põe esses vídeos na web, e milhões de pessoas acreditam nele. Assim, quando ele lhes diz que a vacina feita pelos cientistas é tudo uma grande conspiração, os milhões de crentes que o seguem não irão tomar a vacina. A verdade é que ele nunca teve a doença, e por isso também não a curou com qualquer produto normal. Simplesmente criou vídeos a dizer isso, para ter milhões de seguidores crentes sedentos em conspirações, e com isso fez milhões de dólares. Tal como em outras conspirações (anti-vacinas, cometa Elenin, 2012, ida à Lua, fim do mundo, etc), os conspiradores mentem, inventam cenários em que o “bicho-papão” são os especialistas (só porque têm mais conhecimento que os conspiradores), e com isso os conspiradores afectam milhões de pessoas que acreditam cegamente neles. Aqueles que disseminam conspirações fazem o que em psicologia se chama projecção: mentem, imaginando que todos os outros estão a mentir-lhes a eles. É uma paranóia que destrói vidas.
Isto é o que os crentes em conspirações não percebem: que estão a ser enganados na sua própria conspiração.

Esta para mim é a parte mais interessante do filme.
Porque mostra os conspiradores pelo que são: mentirosos que afectam milhões de pessoas que neles crêem. Muitas vezes são até criminosos que, com as suas mentiras, fazem com que pessoas morram.
E mostra os cientistas pelo que são: sempre a tentar salvar pessoas e a melhorar o nível de vida delas. E a verdade é que milhões de pessoas são salvas devido aos cientistas criarem as vacinas necessárias.

O documentário Last Days on Earth também fala de uma epidemia que pode devastar a Humanidade:

(se clicarem em CC podem pôr legendas e depois traduzir para português. As legendas não são perfeitas, mas podem ajudar)

Acerca do autor(a)

Carlos Oliveira

Carlos F. Oliveira é astrónomo e educador científico. Licenciatura em Gestão de Empresas. Licenciatura em Astronomia, Ficção Científica e Comunicação Científica. Doutoramento em Educação Científica com especialização em Astrobiologia, na Universidade do Texas. Criou e leccionou durante vários anos um inovador curso de Astrobiologia na Universidade do Texas. É actualmente Research Affiliate-Fellow em Astrobiology Education na Universidade do Texas em Austin, EUA. Trabalhou no Maryland Science Center, EUA, e no Astronomy Outreach Project, UK, recebeu dois prémios da ESA, e realizou várias palestras e entrevistas nos media.

2 comentários

  1. Paulo

    Lembro-me do “Outbreak” com o Dustin Hoffman e o Donald Sutherland…

  2. Diana Barbosa

    Ola!

    Sei que o post já é antigo, mas “vim cá parar” agora…e vi o filme há um par de semana.
    Eu gostei e partilho em grande parte da tua opinião.
    No entanto, quem me acompanhava achou que o vendedor de banha da cobra saiu demasiado ileso da história. Quiçá se devesse ter dado ainda mais ênfase à sua trafulhice.
    Ainda assim, sendo um filme de Hollywood, achei que se sairam bastante bem.
    Quiçá até demasiado próximo à realidade que vivemos não faz muito tempo e onde as teorias da conspiração foram mais que abundantes (embora eu confesse que a histeria também foi um pouquito muita).
    :)

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